Você tem um Plano B?

Por maior que seja o nosso comprometimento em alcançar um benefício futuro, é impossível prever os gastos extraordinários. Seja um acidente, um celular roubado, um problema súbito de saúde, ou a perda do emprego de um dos membros da família, os imprevistos podem acontecer a qualquer momento. Estes fenômenos chegam de repente, como uma chuva torrencial e, de acordo com a Lei de Murphy, têm a tendência de ocorrer em sequência. Sem um Plano B adequado para contornar (ou pelo menos lidar com) essas situações, as emergências financeiras têm o potencial de fazer nossos preciosos planos afundarem como barquinhos de papel sob as ondas.

E a quem recorrer nestas situações? Você pode estar pensando: “Que mal há em passar no cartão de crédito, como faço com a maioria dos meus pagamentos, para ganhar mais tempo para pensar e ‘digerir’ essa situação? No próximo vencimento da fatura, eu vejo o que fazer”. Bem, você já conferiu a taxa de juros anual de um cartão de crédito? O cartão é uma ferramenta poderosa que abriu novas possibilidades de consumo e flexibilizou as alternativas de pagamento da fatura, mas desde que você passe a quilômetros de uma dívida no rotativo.

No país com as maiores taxas do mundo de juros no cartão de crédito, ultrapassando 360% ao ano (BACEN, mai/17), o que equivale a cerca de 13,6% ao mês, a tomada de crédito excessivo e sem planejamento por essa via e sem saber exatamente como você irá pagar é uma alternativa perigosa e que pode se transformar rapidamente em uma bola de neve. Por experiência própria, uma vez nesse caminho, raramente a resolução é simples, e os seus desdobramentos podem impactar profundamente todos os membros da família.

Vamos ver um exemplo: Suponha que você resolva comprar um celular novo no cartão de crédito e divida em quatro vezes. Faltando R$ 600 para terminar de pagar o aparelho, você perde o emprego. Na semana seguinte, sua mãe passa mal e você gasta mais R$ 400 entre transporte ao hospital e medicamentos. Para ajudar, a despensa está vazia e você gasta mais R$ 100 para encher só 1/3 da geladeira e depois mais R$ 100 para recarregar o cartão do ônibus, que estava zerado, para ir às aulas na universidade ou procurar emprego. Sem uma alternativa para pagar estas despesas, você adquiriu uma dívida de R$ 1.200 no cartão que tem o potencial para virar…

Fonte: Aplicação de Juros. OBS: Pelas novas regras do Banco Central, vigentes desde abril, a dívida no rotativo do cartão de crédito (13,6% a.m. em jun/17) só pode rolar no 1º mês. Depois, o valor deve ser refinanciado a uma taxa de juros menor, definida a critério do Banco. A taxa utilizada para o cálculo de Novembro em diante (9,9% a.m.) foi uma das divulgadas pelos bancos em jun/2017 para esta modalidade de refinanciamento. Mesmo com a diminuição, esta continua sendo uma das alternativas de crédito mais caras do mercado. (saiba mais)

… mais de R$ 3.800 em apenas 1 ano.

Absurdo, né?

O dado mais impactante é que, até o mês passado (CNC:PEIC, set/2017), das mais de 9,3 milhões de famílias brasileiras que possuem dívidas (majoritariamente no cartão de crédito – 75%), cerca de 18%, ou 1.603.716 famílias, simplesmente não terão condições de pagar suas dívidas em atraso.

Mas qual a solução? Existe uma maneira de eu me preparar para não ser (tão) afetado(a) por um imprevisto, algo que eu nem sei o que é, nem de onde vem? Sim, em termos, meu caro gafanhoto.

Assim como fazemos na Engenharia e na Gestão de projetos, em que há diversos riscos e incertezas envolvidos quanto à resistência de um material, a vazão ou carga térmica de um equipamento, à data de entrega de uma atividade ou à disponibilidade de tempo de um integrante da equipe, podemos fazer estimativas. Embora elas dificilmente representem a realidade com exatidão milimétrica, nos dão uma aproximação que é boa o suficiente para prever, para mais ou para menos, a maior parte dos percalços que podemos encontrar na prática.

No mundo das finanças pessoais, essa “gordurinha” associada à ‘Gestão de Riscos’ se chama Reserva de Emergência.

Por que ela é uma “gordurinha” e não simplesmente parte do montante que já investimos? A função da reserva de emergência (ou Plano B) é diferente do que poupamos para acúmulo de riqueza, embora seja fundamental para este último. Ela serve como um colchão, posicionado necessariamente em um investimento de baixo risco e fácil retirada (alta liquidez), a que podemos recorrer em uma situação extraordinária. Ela possibilita:

  1. Evitar as dívidas: É uma forma de planejar-se para evitar o descontrole de dívidas que podem minar suas finanças, como vimos no exemplo acima.
  2. Equilibrar as Contas e ter Tempo para Ajustar-se: Com um pé-de-meia adequado às suas necessidades, você tem o privilégio de poder refletir com calma sobre seus próximos passos, sem o stress de correr atrás das contas vencendo.
  3. Proteger os Investimentos Já Realizados: Você consegue responder às situações inesperadas e ao mesmo tempo proteger suas alocações de maior retorno e menor liquidez, seja aquela LCI (Renda Fixa) que só pode ser sacada daqui a um ano e meio, seja evitando vender aquele lote de ações num momento de desvalorização na Bolsa.
  4. Aproveitar as Oportunidades: Após algum tempo, as dívidas não pagas costumam receber ofertas de quitação com bons descontos, mas desde que pagas à vista. Outras oportunidades que só podem ser aproveitadas quando se tem dinheiro em caixa incluem um grande desconto naquele curso ou viagem dos sonhos.

O objetivo aqui é a tranquilidade financeira. Assim, a reserva deve ficar alocada em um local seguro cujo foco seja o fácil acesso, ao invés da rentabilidade.

E quem deve ter uma reserva? Em resumo, todos! O que varia é o tamanho estimado desta reserva, de acordo com o perfil de risco de cada um.

Qual o tamanho ideal de uma reserva de emergência? O ideal é começar com o equivalente a 3 meses dos seus gastos habituais. Por exemplo:

  • Se você é responsável pelo pagamento de R$ 700 em contas da casa e mais R$ 300 de transporte para a faculdade, totalizando R$ 1000 por mês, comece poupando R$ 3000 – o equivalente a 3 meses dos gastos sob a sua responsabilidade

A partir daí, ajuste o tamanho da reserva para a sua provável necessidade. Por exemplo:

  • Se você tem um emprego sem estabilidade e acredita que poderia levar até 6 meses para se recolocar no mercado, você poderia aumentar a reserva para 6 meses dos seus gastos habituais;
  • Se você divide as contas com alguém, cada um poderia manter sua própria reserva, garantindo que todos os gastos habituais estejam cobertos no caso de ambos ficarem desempregados. Você também pode estimar os valores com base em gastos excepcionais que teve no passado, por exemplo: ‘O último conserto de emergência em casa custou R$ 250’, ou ‘A última vez em que o meu cachorro teve um problema de saúde, gastei R$ 500’. Junte as provisões para estes cenários com a reserva de gastos habituais, até chegar a um valor em que você se sinta confortável. Leve em consideração também, de maneira realista, quais dos seus gastos habituais poderiam ser diminuídos numa situação de aperto, como por exemplo, gastos com transporte, restaurantes, roupas, etc, para esticar a duração da reserva. O valor que traz tranquilidade é pessoal e depende muito da realidade de cada um. De modo geral, uma reserva que dure entre 6 meses e 1 ano te dá tempo suficiente para se organizar e conseguir um novo emprego ou se ajustar a uma nova realidade financeira. No meu caso, funcionou considerar uma reserva que dure até 1 ano em um cenário otimista [apenas gastos habituais] e até 9 meses em um cenário pessimista [gastos habituais + 3 emergências, cada uma equivalente a um mês de gastos habituais]. E quando devo iniciar a reserva de emergência? Idealmente, antes de iniciar seus investimentos. Isto lhe trará mais tranquilidade para investir em ativos de menor liquidez e maior rentabilidade, ou que dependam de venda em momentos específicos. Se você já investe, considere separar para isso pelo menos 50% do aporte mensal até chegar em 3 meses dos gastos habitais, e a partir daí, faça o ajuste de acordo com seus cenários. Onde posso aplicar a Reserva de Emergência? O foco sempre será a liquidez alta, mas existem alternativas também com rentabilidades interessantes. Alguns exemplos:
  • Caderneta de Poupança: é a alternativa clássica para a Reserva e a sua principal atratividade fica por conta da liquidez imediata, ou seja, em qualquer banco ou caixa eletrônico é possível convertê-la em dinheiro na hora e sem pagar IR. Porém, a rentabilidade deixa a desejar, abaixo de outras alternativas de investimento e frequentemente abaixo da inflação, gerando perda real do valor do dinheiro no tempo.
  • Tesouro Selic (LFT): Este título do Tesouro Direto oferece o menor risco entre os títulos públicos, acompanhando sempre a taxa Selic – ou seja, você nunca receberá menos do que investiu –, e com rentabilidade superior à Caderneta de Poupança. Incide IR sobre os lucros, conforme você pode conferir no material da LIEQ sobre Tesouro Direto e os tempos de liquidação ficam entre 0 e 1 dia útil, dependendo da corretora (‘D + 0’ e ‘D + 1’, respectivamente). Confira aqui o prazo de repasse de cada agente de custódia do TD, na coluna ‘Prazo de Repasse dos Recursos’.
  • CDB com liquidez diária: Alguns bancos oferecem Certificados de Depósito Bancário (CDB) com rentabilidades em torno de 100% do CDI e liquidez diária, como é o caso dos Banco Inter e Sofisa Direto. Vale lembrar que, assim como os títulos do Tesouro Direto, incide Imposto de Renda sobre os lucros do CDB. (Saiba mais sobre os CDBs) A segunda e a terceira alternativas apresentam baixo risco e rentabilidade superior à Caderneta de Poupança, mas é importante ressaltar que, embora você possa liquidar estes investimentos diariamente, será necessário entre 1 e 2 dias úteis de tramitação bancária até a real disponibilização dos recursos! Assim, se for utilizar estas alternativas, é recomendável manter pelo menos uma parcela da reserva (que você julgue suficiente para cobrir uma necessidade instantânea de dinheiro – como uma compra que só pode ser feita à vista) em uma modalidade com liquidez imediata, como a Caderneta de Poupança ou mesmo o limite do Cartão de Crédito. Este último, desde que usado de maneira planejada, isto é: você deve definir o valor que utilizaria do limite e mantê-lo sempre disponível, garantindo que este valor exista na reserva de emergência para pagar a fatura! Por fim, aproveite a tranquilidade proporcionada pela Reserva de Emergência para focar no que realmente importa: Acelerar a conquista da liberdade financeira. Resiliência é isso: a capacidade de superar adversidades e se manter firme no objetivo planejado. Quando nos cercamos de fundações resistentes (e/ou planos B bem estruturados), multiplicamos a nossa capacidade de reagir com flexibilidade aos percalços que eventualmente (mas certamente) encontraremos no caminho. Bons investimentos!

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