Você está se enganando…

Aposto que nunca pararam para se perguntar se as fugidinhas da dieta tem relação com a dificuldade de “fazer sobrar” um pouco de dinheiro ao final do mês. Provavelmente não, né? Mas talvez você devesse…

Vamos tentar traçar esse paralelo.

Quando começamos uma dieta normalmente estamos um pouco insatisfeitos com alguma coisa, seja a maneira com a qual nos alimentamos, a balança (sempre ela!), taxas sanguíneas, aspecto da pele, etc. Disso surge motivação para buscar algo que acreditamos ser melhor. Uma vez definida a dieta, começamos com todo gás! Conforme o tempo passa, porém, vamos perdendo o ímpeto. São tantos doces, frituras e outras delícias. Comer saudável parece tão trabalhoso. Escorregamos aqui e ali até que, de repente, já nem lembramos o que é uma dieta.

E como começamos a poupar? Podemos querer trocar algum aparelho, fazer viagem, dar um presente a alguém. Para realizar esse desejos, montamos um plano para reduzir nossos gastos. Nos preparamos para sair com menos frequência, comer em locais mais baratos e outras alternativas. Mas aí vem o aniversário de um grande amigo, aquela festa muito boa que não dá pra não ir, vem a vontade de comida japonesa. Daí você pensa: ah, só dessa vez não vai prejudicar tanto. Então, também de repente, a viagem chega não juntou tudo o que precisava, acaba comprando o celular no cartão mesmo e por aí vai.

Percebeu a semelhança? Em ambos os casos há a opção por um sacrifício agora, para obter um benefício futuro. Mas, também nos dois casos, tendemos fortemente a preferir o benefício agora com o custo de um sacrifício futuro. O problema é que atribuímos mais valor ao benefício agora. Nós somos “programados” para isso.

Esse ímpeto foi importante para evolução e perpetuação da espécie. Essa preferência pelo agora nos ajudou muito numa época em que a expectativa de vida era baixa e devíamos completar o ciclo de nascimento, reprodução e morte. Ser impulsivo era bom para espécie. Pros dias de hoje isso já não ajuda muito.

As implicações dessa tendência, como mostrado com o exemplo simples da dieta, vão além da esfera econômico-financeira da vida do ser humano moderno, contudo meu foco é nesta última. Como será que o Desconto Hiperbólico influencia nosso relacionamento com dinheiro/investimentos?

Vamos a mais um exemplo. Te faço uma oferta: quer receber R$ 1.000,00 hoje ou R$ 1.100,00 daqui uma semana. O que prefere? A maioria das pessoas escolher a primeira opção. Agora eu mudo a oferta. Te ofereço R$ 1.000,00 em um ano ou R$ 1.100,00 daqui um ano e uma semana. Nesse novo formato, é mais comum que se escolha a segunda.

Perceba que a escolha é a mesma. Ganhar R$ 100,00 a mais para esperar uma semana. A proximidade de receber hoje faz com que cheguemos a conclusões diferentes. Esse é o poder do Desconto Hiperbólico.

Se isto já é um problema quando falamos de ganhos, fica maior se passamos às despesas.

Para tentar traduzir essa troca (benefício hoje, custo no futuro) em termos econômicos. Vamos dizer que há um bem ou serviço que eu quero muito, porém não tenho dinheiro para comprá-lo. Para mim o benefício é usufruir deste produto/serviço. Eu tenho duas alternativas:

Caso 1) adquiro uma dívida (endividar-se com cartão de crédito, empréstimo, dinheiro de parentes/amigos) para tê-lo agora;

Caso 2) junto dinheiro para conseguir para comprá-lo depois (poupar).

No primeiro caso é quando acontece de aplicarmos o desconto hiperbólico. Há grandes chances de darmos uma importância maior do que deveria ter ao benefício, simplesmente por ele estar próximo, vide os mil reais hoje do exemplo anterior. Somamos, ainda, o descrédito que damos ao benefício no futuro (poupar, comprar algo do qual necessitamos mais, dar um presente a quem gostamos). “Qual o problema de pagar um pouco a mais, se eu vou ter isso agora?”. É muito difícil fazer o link entre comprar mais uma roupa e ter menos dinheiro na aposentadoria. Parece exagero, mas não é.

Vale ressaltar que não estou dizendo que todas as vezes que compramos algo é de maneira desnecessária e que só deveríamos estar juntando dinheiro! Mas, é inegável que agimos por impulso em várias ocasiões. Tenho escolhido a palavra benefício em lugar de necessidade de propósito.

Seguindo o Caso 2 te dá opção de obter descontos e de evitar a cegueira temporal. Afinal, enquanto estamos economizando, temos tempo para refletir se o benefício realmente vale o sacrifício. Daí vêm decisões mais acertadas e resultados muito melhores.

Quando fazemos a escolha de ter agora e pagar depois, comprometemos o orçamento do futuro com um gasto do presente. O primeiro ponto crítico aqui é: quem garante que no futuro poderemos arcar com isso? O segundo é: valerá a pena pagar por isso depois de consumido, ou essa despesa virará um arrependimento toda vez que a fatura chegar?

O cartão de crédito é o vilão mais comum, porém qualquer forma de crédito pode causar mesmo efeito. Não que a disponibilidade delas seja prejudicial (a culpa por uma escolha ruim não é do cartão e sim de quem usa). Mas podem formar um combo poderoso com a falta de prioridade/planejamento, gerando problemas para nossos “eus” do futuro.

Devemos encarar da seguinte maneira: há uma posição que devemos assumir: quem empresta dinheiro (credor) ou quem pega dinheiro emprestado (devedor). O segundo paga ao primeiro para poder gastar o que ele não tem. Ou seja, paga duas vezes. Pensar como no Caso 1 é escolher assumir a posição de pagador.

Novamente, não estou afirmando que nunca devemos assumir essa posição em nossas vidas. Fazemos esse tipo de escolha quase diariamente e sempre estaremos nas duas posições ao mesmo tempo. A preocupação tem que estar em sermos mais credores que devedores. Dessa maneira, estamos gerando patrimônio no longo prazo.

Traçamos esse raciocínio baseado em não termos como pagar pelo benefício na hora, contudo o Desconto Hiperbólico(DH) se aplica mesmo que seja possível fazê-lo. Talvez seja ainda mais difícil evitar cair nesse erro. Mas, se formos mais devedores que credores, estaremos corroendo patrimônio e não existe patrimônio infinito. Por isso é tão importante evitar cair no erro do DH.

E como podemos fazer isso? Sendo este um problema de finanças pessoais essencialmente, é justamente a priorização e o planejamento que podem nos ajudar a contornar essas questões. Não são terceiros que resolverão seu problema. Primeiro, defina alguns objetivos de vida para os próximos meses/anos/décadas. É clichê, but true: quem não sabe pra onde vai, qualquer caminho serve. A partir destes, quais são os recursos financeiros que preciso e o quais as prioridades? Do que posso abrir mão para alcançá-lo mais rapidamente?

Tendo prioridades, fica muito mais fácil dizer não. Falamos constantemente em nossas atividades: não compre coisas que você não precisa, para impressionar pessoas que não gosta e se transformar em quem você não quer ser. Quando estivermos seguindo isso, estaremos no caminho certo da priorização.

É claro, que, como numa dieta, você precisará de foco para continuar firme no propósito. Mas, não podemos deixar nossa mente nos enganar sobre o que é melhor para nós mesmos! Invista naquilo que vai te trazer benefício no futuro e faça as escolhas com consciência, não por estímulo ou instinto.

E, quando algo fora do planejamento aparecer, se faça essas três perguntas: eu realmente preciso disso?, eu posso esperar para ter isso? e eu consigo isso de graça/mais barato? Essas são dicas muito boas que peguei nesse vídeo

Caso queira se aprofundar no tema de Desconto Hiperbólico, o livro “O Valor do Amanhã”, de Eduardo Giannetti (Cia das Letras, 2002) é bastante completo. Ele também trata de como os juros são propriedade inerente da vida e como podem ser muito benéficos de aplicados corretamente. Aquela história de ser mais credor que devedor, novamente.

E você, se identificou com alguma parte do texto? Também já errou algo assim? Conta pra gente!

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