Peneirando Ações

Olá, caro leitor, tudo bom? Esperamos que sim.

No artigo de hoje, nós vamos falar sobre um método para facilitar a sua vida na hora de decidir qual ação comprar- ou pelo menos qual não comprar. A gente também vai te mostrar como aplicar ele na prática usando o Excel.

O método busca eliminar parte do viés de confirmação do investidor, evitando que ele favoreça empresas claramente ruins ou caras, seja porque ele acredita no futuro brilhante dessa empresa ou possui, digamos, um apego ou se sente compadecido pela causa social a qual ela serve. Além disso, existem mais de 300 empresas listadas na bolsa e muitas delas emitem mais de um tipo de ação, acompanhar de perto todas elas ao mesmo tempo é uma tarefa impossível, então também ajudaria muito eliminar de cara todas aquelas empresas que você bate o olho e vê que não te servem, porque não atendem os seus critérios mínimos.

O método se propõe, então, a fazer duas coisas: evitar que você compre o que com certeza não deveria – embora gostaria -, e te poupar do trabalho de ter que analisar algo que você certamente não vai comprar.

Como que o método funciona? Primeiro vamos atentar pros nossos dois objetivos iniciais.

I – Evitar comprar o que você com certeza não deveria, embora gostaria.

Bem…isso vai de cada um, alguns investidores colocam bastante ênfase na governança e não investem em empresas que não estejam, por exemplo, no segmento do mercado novo da B3; outros só compram empresas situadas em setores promissores, ou empresas com um tamanho mínimo X. Nós colocamos bastante ênfase no preço das empresas, isto é, o quanto você está levando pelo preço que você está pagando. É imperativo que você defina fronteiras para o seu critério, que quer que ele seja.

Nossa escolha surge primeiro porque esse critério é quantitativo e, portanto, o valor gerado independe das nossas opiniões a respeito da empresa – evitando o enviesamento; segundo, porque se pode enumerar as empresas a partir do critério – criar um ranking. Dessa forma, mesmo que eu ame de paixão uma empresa, acredite na sua causa, goste dos seus produtos, se ela não estiver bem colocada no meu ranking eu não vou comprar e ponto.

II – Se poupar do trabalho de ter que analisar algo que você certamente não vai comprar.

A bolsa de valores tem empresas o suficiente para te dar trabalho pra fazer, mas você certamente não vai conseguir lidar com todas ao mesmo tempo. Existem empresas para todos os gostos: pros aventureiros, pros especuladores, pros buy-and-hold, pros colecionadores, e para nós, investidores em valor. Naturalmente, nem todas as empresas atendem os gostos de todo mundo – de fato, duvidamos que haja sequer uma que agrade a todos. Sendo assim, o seu critério deve ser obedecido de maneira obrigatória, um que se encaixe no seu gosto, do contrário, a empresa não é digna nem de ter seu nome sabido. Um aventureiro, por exemplo, provavelmente iria querer empresas cujas curvas de lucro parecem uma montanha-russa, ou que o preço oscila com cada notícia de fusão ou separação ou sei lá o que; nós, por outro lado, só queremos saber de pagar barato – se estamos comprando presunto a preço de mortadela está tudo certo pra gente.

Beleza, já sabemos mais ou menos o que usar. Gostamos de números e de rankings e também gostamos de pagar barato. Que critério para comparar preço e valor poderíamos usar? Existem vários, como P/L, P/VP, EV/EBIT, etc.; cada um com as suas vantagens e suas franquezas. Se o objetivo é só peneirar as empresas, não há muita necessidade de se fazer análises muito rebuscadas ou usar zilhões de critérios, porque a ideia aqui não é decidir o que comprar, mas sim o que não comprar. Escolha um número tal de critérios de acordo com a sua paciência para montar as tabelas.

Caso você esteja boiando nesse papo de preço e valor, aqui vai um resumo: preço é o que você paga pela empresa (a cotação), valor é o que você ganha (a qualidade do negócio). Se o mercado fosse eficiente e colocasse um preço correto em tudo, preço e valor seriam a mesma coisa; embora ele acerte na maior parte do tempo, as vezes ele exagera. Nos excessos de otimismo ou pessimismo, generalizado ou localizado, ele comete equívocos e acaba vendendo a preços muito menores do que o valor real do negócio ou comprando a preços muito maiores. No primeiro caso a gente compra dele, no segundo nós vendemos a ele. Essa é a ideia, pelo menos. Fazer é um pouco mais complicado do que isso.

Voltemos à vaca fria!

Nós vamos usar os dois critérios que nos inspiraram a fazer este artigo, detalhados no livro The Little Book that Beats the Market, de Joel Greenblatt: ROIC (ele não usa exatamente o ROIC, mas no caso geral as diferenças serão suportáveis, e como vocês verão, mais pra frente, é uma escolha bem conveniente de se fazer) e o EBIT/EV. Nossas raízes no conhecimento atemporal provido pelo O Investidor Inteligente nos impede de prosseguir ignorando o P/VP. Portanto temos esses três. Já demos no nosso parecer sobre o P/VP nesse artigoaqui , a ideia do ROIC e do ROE são bem parecidas, bem como a relação entre EBIT/EV e do P/L, você pode saber mais sobre cada um eles aqui e aqui.

Nós optamos pela troca para não haver diferenciação entre empresas que operam com financiamentos diferentes, dívida é algo que nós gostamos de olhar depois da peneira: algumas se dão bem alavancadas, ou empresas sem dívida nenhuma podem estar trabalhando aquém da sua capacidade, cada caso é um caso.

Vamos à parte prática agora!

Catemos os dados: o site fundamentus.com.br fornece filtros para que nós escolhamos o que queremos. Basta você ir em “Busca Avançada por Empresa”, na página inicial do site. Nós colocamos um mínimo de 0 em tudo porque menor que isso implicaria em prejuízos operacionais ou patrimônio negativo; peneirar usando valores negativos é possível, mas entraria num nível de discussão que não consideramos adequado para o momento.

Aqui vocês podem ver o porquê da escolha do ROIC: ele já vem quentinho do forno pra gente. O EBIT/EV também vem invertido, mas é só mudar a maneira de interpretar. Se for pra escolhermos um critério para aplicar para toda a bolsa, é bom que não tenhamos que fazer de um em um, certo?!

Agora é só filtrar. A ordem de exibição não importa muito. Quando aparecer o resultado da busca, use o atalho Ctrl+A para selecionar a página toda, copie o selecionado, abra uma planilha no Excel e cole.

(mentimos pra vocês quando dissemos que iríamos mostrar como se faz pelo Excel, hihihi… vamos mostrar como se faz pelo LibreOffice, mas que é igualzinho, pelo menos pra isso, ao Excel).

Depois que você abriu a planilha e colou tudo, dê uma organizada nela: tire o cabeçalho e o rodapé da página que foram parar lá. Também tire as colunas dos critérios que você não escolheu (selecione as colunas com o botão esquerdo do mouse e com o clique com o direito e vá em “excluir colunas”) . Também é bom tirar os links que ficaram nas células, pra quando você clicar sem querer não ficar sendo redirecionado ao site – você pode fazer isso dando Ctrl+A, Ctrl+C, Ctrl+Alt+Shift+V. É sempre melhor trabalhar num ambiente organizado, não é mesmo?

Caso você tenha feito besteira, Ctrl+Z (desfazer ação anterior) e Ctrl+Y (refazer ação anterior) são seus aliados.

Depois de fazer tudo isso, você deveria estar vendo algo assim:

Nessa planilha, crie uma coluna “Ranking”, clicando com o botão direito na coluna A e então em “inserir coluna antes”. Agora, crie três planilhas iguais a essa para começarmos a brincadeira (dê nomes a cada uma para não se enrolar depois). Para copiar a planilha, clique com o botão direito onde aparece o nome dela e copie, no nosso caso é onde está escrito “Sheet1” no rodapé, ou aperte Ctrl+A na planilha atual, Ctrl+C, clique no “+”, também no rodapé, e dê Ctrl+V na planilha nova.

Vamos montar os rankings agora, comecemos pelo ROIC:

  1. Selecione a sua coluna;
  2. Vá em “ordenar decrescente”, que costuma ficar já na barra de ferramentas ou na aba “dados”;
  3. Aceite o pop-up de “estender seleção”, que vai aparecer na sua tela (algumas versões do Excel já fazem isso automaticamente para você).

Agora você tem uma tabela enumerando as empresas por ordem decrescente de ROIC. Atribua um Ranking a cada uma delas: o mais óbvio é a sequência de números naturais (1,2,3,4…), só se certifique de escolher o mesmo sistema para os três filtros. Você, ao invés de colocar o ranking de 1 em 1 pode colocar só os dois primeiros, selecionar as duas células e então arrastar (puxando aquela cruzinha preta que aparece no canto inferior direito).

No final, você deveria estar com algo assim, ordenado pelo ROIC e com o ranking proporcional atribuído:

Depois disso, ordene agora a coluna “Papel” por ordem alfabética, para que depois do ranking todas as empresas apareçam na mesma linha, ao longo das abas. Para evitar de colocar o cabeçalho no meio da ordenação e perder ele, selecione a linha 2, dê Ctrl+Shift+↓ e então selecione a ordem alfabética.

Repita o mesmo procedimento para EV/EBIT e P/VP, lembrando que nesses dois, os primeiros do ranking deveriam ser aqueles com os menores valores, então enumere pela ordem crescente.

Agora vamos para a nossa última planilha, que é onde tudo se resolve. A primeira coisa a fazer é colocar as ações por ordem alfabética, como estão as outras planilhas.

Assim ficou a primeira empresa da lista, em ROIC, EV/EBIT e P/VP, respectivamente. A quarta planilha serve justamente para somar os rankings dos três. Dessa forma, as melhores colocadas são aquelas que, no geral, melhor atenderam os três critérios ao mesmo tempo.

Vá na quarta planilha, na coluna “Ranking”, e some o das outras três. Faça isso para cada empresa. Para fazer a soma, coloque o “=” na célula escolhida e então clique no primeiro termo da soma (que vai estar na outra planilha) então coloque o “+” e então para o segundo e terceiro termo. Você pode inserir a soma somente na primeira e depois arrastar, da mesma forma que fez o rankeamento.

A figura ilustra como deveria ficar a soma. No Excel, o modo como o programa computa a seleção de células de outras abas na barra de fórmula pode ser um pouco diferente do mostrado, mas a fórmula, em si, não.

Depois de fazer tudo isso, selecione a coluna do ranking e ordene por ordem crescente.

Voilà! Temos nosso ranking!

Ele deveria ter uma cara mais ou menos assim:

Pelos critérios informados, essas são as melhores ações. Você pode parar por aqui e muitas pessoas de fato o fazem – tomar decisões quando você não sabe o que está fazendo é pior do que não tomar nenhuma.

(bem, não tomar nenhuma decisão também é uma decisão, o que implicaria que você estaria fazendo aquilo que é pior que não tomar uma decisão – caso você não saiba o que está fazendo -, mas não tomar uma decisão é justamente o que você estaria fazendo, como poderia ser pior que ela mesma?….aaaagh…. deixa isso pra lá, você entendeu.)

Mas o trabalho, para muitos, ainda não acabou. Daqui iríamos, por exemplo, descartar logo de cara as empresas sem liquidez. Sejamos razoáveis: só queremos saber se dá para comprar a empresa ou não. Algumas das empresas listadas negociam menos dias do que temos feriados!

Ao encontrarmos uma empresa a qual fosse possível comprar, poderíamos começar a pensar nesta possibilidade avaliando a qualidade dos resultados do último ano, os quais figuram no ranking, e se eles são representativos ou não; ou se a empresa possui um nível de dívidas mais alto do que aquele que nós nos sentiríamos confortáveis em aceitar; ou a qualidade dos ativos, capital de giro, dividendos, etc. A lista é longa e cabe a você decidir o que vale a pena analisar ou não.

Depois de passar pelos seus filtros, e depois pelos crivos menores, você pode, talvez, chegar a uma conclusão afirmativa: Eis aqui uma empresa que eu quero ser sócio!

Espero que o artigo tenha de ajudado, até a próxima…

Texto por João Marcos

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