Mercado Financeiro e Impactos Socioambientais

Atualizado: 28 de Out de 2020

Será possível utilizar o mercado financeiro como meio de apoio para projetos socioambientais?

Acredito que muitas pessoas já se questionaram sobre os impactos socioambientais negativos que o mundo do mercado financeiro pode causar. Ao fomentar uma empresa global de produtos químicos, por exemplo, você pode estar incentivando, de certa forma, diversos danos ambientais invisíveis aos seus olhos, mas com significativo impacto negativo. No entanto, essa não precisa ser uma preocupação a mais no seu dia a dia, visto que, atualmente, existem alternativas seguras de se investir e obter resultados e impactos positivos. É sobre isso que falaremos aqui.

De boas intenções o mundo está cheio. Mas o que falta para que possamos tornar investimentos financeiros em fomentos a boas ações à sociedade? Nos dias atuais, esse assunto vem sendo cada vez mais discutido em instituições financeiras, não apenas pela necessidade do mundo de desacelerar os impactos socioambientais negativos e revertê-los de alguma forma, mas também pelo potencial de retornos positivos com esse tipo de investimento. Por isso, cada vez mais o método ESG de analisar empresas vem sendo introduzido no mercado.

Mas o que significa ESG?

A sigla ESG significa Environmental, Social and Governance (em português, Meio Ambiente, Social e Governança), sendo um meio moderno de analisar as empresas para determinados tipos de investimentos. O fator meio ambiente tem o intuito de avaliar se uma empresa é ambientalmente correta, se possui algum tipo de impacto ambiental e projetos de melhoria nos processos para minimizá-los. No caso do social, entram alguns quesitos, como diversidade dentro da empresa, inclusão de grupos minoritários, direitos trabalhistas, treinamento dos funcionários, projetos sociais de impacto positivo, incentivo à população do entorno da empresa, entre outros. Por sua vez, a governança avalia como a empresa gere seu negócio, se existem políticas a serem seguidas, como as regras de compliance e políticas de anticorrupção, além de abranger a análise de comitês variados.

Ressalta-se que, quando o método ESG é adotado, ele deve ser empregado não apenas na empresa em questão, mas em toda sua cadeia a fim de introduzir um sistema sustentavelmente íntegro. Mas o que falta para que seja totalmente introduzido no mercado financeiro? Um deles é a força de vontade de executivos mais altos dentro das instituições. Darei um bom exemplo da situação abaixo.

Cristiane Pedote, de 50 anos, trabalhou cerca de 20 anos no mercado financeiro. Foi vice-presidente em grandes bancos como Goldman Sachs e J.P. Morgan. Em certo momento de sua carreira, decidiu que gostaria de trabalhar em algo mais voltado para o social. Em 2011, após 11 anos de companhia, pediu demissão para poder se aprofundar em um projeto social chamado “TETO”, que visa construir casas para pessoas de baixa renda. Entretanto, seu pedido foi negado por seu chefe, o qual preferiu afastá-la por 3 meses para que pudesse sugerir mudanças em seu papel dentro da empresa. Ao retornar, se tornou promotora do bem e conseguiu desenvolver diversos projetos, como capacitação de jovens educadores em parceria com a Unicef e a participação em uma organização mundial que visa inserir mulheres no mercado de trabalho em cargos de liderança.

Mas como investir nesse meio e obter rendimento?

Para quem não sabe, sim, é possível obter rendimento com investimentos de cunho social. Em São Paulo, existe uma empresa gestora de patrimônio chamada Wright Capital, na qual investidores qualificados, com mais de um milhão em conta, caso queiram o serviço, devem aceitar que pelo menos 1% de seu capital a ser administrado seja investido em projetos com retorno social, mas que também possuam retorno financeiro. Os fundos que a empresa investe são similares a fundos de participação. Alguns investidores se juntam e compram participação direta em alguns negócios ou empresas. Porém, diferentemente de um simples investimento, esse deve proporcionar retorno para a sociedade.

Fundos.

Um exemplo de fundo que a Wright Capital investe é o “Mov”, no qual é possível ajudar famílias que vivem em áreas invadidas a regularizarem suas situações através da intermediação com o proprietário daquele terreno. Existe também o fundo “Vox”. Nesse caso, não é diretamente um projeto que é investido, mas, sim, uma startup que concede microcrédito para microempreendedores, mesmo que não haja CNPJ. Em meados de 2018, um dos fundos no qual havia investimento por parte da empresa, vendeu sua participação na “Tem”, uma startup de cartões pré-pagos para consultas e exames médicos a preços acessíveis. Para ter uma ideia da dimensão, essa venda gerou rendimento de cerca de 26% do dinheiro aplicado, o que é maior que muitos outros fundos conhecidos por aí.

Outra empresa que faz o intermédio do investimento de impacto é a Yunus, criada pelo economista que ganhou o prêmio Nobel da paz em 2006, Muhammad Yunus. A Yunus tem como diferencial apoiar outros projetos que não envolvem apenas o social, mas também a parte ambiental. Mas esse assunto não para por aqui. Alguns bancos muito conhecidos também aplicam essa análise em seus fundos. O Itaú Asset Management, Bradesco, Santander, JP Morgan e muitos outros já possuem fundos ESG. Nesses fundos, através da análise dos quesitos descritos no início do texto, são escolhidas as melhores empresas para fazer parte do fundo. Muitas questões são verificadas, inclusive se a empresa possui alguma prática que vai de contramão às atitudes positivas descritas nas políticas das corporações. E com o passar do tempo, cada vez mais vem crescendo o movimento ESG.

Sou um pequeno investidor, e agora?

Bem, anos atrás o investimento de impacto só era possível para as pessoas com patrimônio mais robusto. E, na maioria das vezes, utilizavam esse modalidade como alternativa a uma simples doação. Dessa forma, além de gerar um impacto positivo ao longo do tempo, obtêm retorno financeiro sobre esse investimento. A boa notícia é que hoje em dia se tornou possível o investimento de pessoas físicas em menores valores. A SITAWI, empresa de investimentos de impacto, começou em 2019 a captar menores investimentos, a partir de mil reais, com o prazo de 2 anos. O investimento é realizado pela plataforma P2P Lending e conseguiu captar, apenas nos 59 dias iniciais, cerca de 1,5 milhão de reais. A primeira rodada de captação foi direcionada para as iniciativas Stattus4, de inteligência artificial para medição de água, CoopSertão e Orgânicos In Box, de alimentos, e UPSaúde, de inteligência de dados aplicada à saúde. A segunda rodada, iniciada em março deste ano, foi voltada para negócios de impacto na Amazônia.

E para aqueles que se perguntam quanto de rendimento um investimento desses hoje em dia podem retornar, seria cerca de 12% de juros ao ano, aproximadamente 1% ao mês. Então, se você investir mil reais, daqui a dois anos, você poderá resgatar um valor de mais ou menos R$ 1344,00, o que é um rendimento muito superior à Taxa Selic e 3 vezes maior que a poupança. Basicamente, sempre há uma corporação intermediária entre a fonte de recursos para investimento e os projetos de impacto em si. Portanto, o objetivo para se obter rendimento é procurar projetos ou startups que causem impactos positivos em nossa sociedade, mas que também possuam alto potencial de crescimento e desenvolvimento.

Para mitigar os riscos, são utilizados investidores âncoras, empresas ou pessoas jurídicas que investem quantias mais altas, garantindo o retorno ou utilizando prazos mais elevados. A Vox, possui riscos mais elevados, no entanto, se a startup investida tiver um crescimento exacerbado, os investidores podem ainda passar a ter direito de participação na empresa, tornando-se muito mais interessante que o investimento na SIWAT.

E para aqueles que não possuem poder para investir mil reais, uma maneira de continuar causando impactos positivos seria construir uma carteira de investimento consciente ou verde. Ou seja, investir em empresas que possuam projetos sociais ou ambientais, como por exemplo a Omega Energia. Atualmente existem também algumas iniciativas, como a da Impact Bank, em que, a cada transação, o banco recolhe R$ 0,10 para um fundo de impacto socioambiental positivo, além disso, transações de maquininhas também recolhem cerca de 0,1% do valor transacionado para iniciativas de impacto positivo.

Em 2018, foi realizada uma pesquisa pela Comunidade Global de Investimento de Impacto na qual consta que 79% das pessoas que investem entre 20 e 40 anos se consideram investidores de impacto. Esse número tende a crescer cada vez mais com as demandas mundiais e a possibilidade de investidores menores poderem atuar neste mercado.

Com o cenário atual de pandemia de COVID-19, vemos ainda em mais evidência que as iniciativas ESG apenas trazem benefícios para as empresas. As companhias que fizeram de tudo para que não houvesse demissão em massa, utilizaram recursos para doar ou investir em equipamentos, máscaras e álcool sairão deste cenário de crise com sua identidade muito mais fortalecida. Além disso, estudos apontam que, para instituições financeiras, o critério ESG ajuda a identificar oportunidades de empresas a se investir. Estudos realizados pela Mercer em 2007 e 2009 apontam para uma tendência muito maior de resultados positivos de desempenho das instituições do que desempenhos neutros ou negativos. Considerando 36 estudos feitos, 20 foram considerados positivos, 13 neutros e apenas 3 negativos. Por fim, vemos que não é necessário se limitar a atos de caridade ou filantrópicos para atingir positivamente nossa sociedade. Podemos impactar positivamente com a nossa proatividade, desejo de mudar o mundo e um pouco de conhecimento sobre investimentos.

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Artigo por: Carol Wang

Revisado por: Rodrigo Monroe e Ana Vitória

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARVALHO, R. Como unir impacto social e sucesso no mercado financeiro? Disponível em: <https://www.napratica.org.br/e-possivel-conciliar-impacto-social-com-uma-carreira-de-sucesso-no-mercado-financeiro/>. Acesso em: 17 out. 2020.

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PIVETTI, F. Lucro com propósito: conheça os investimentos de impacto que buscam fazer o bem e dar retorno financeiro. Disponível em: <https://www.seudinheiro.com/2019/investimentos/lucro-com-proposito-investimento-impacto/>. Acesso em: 17 out. 2020.

ZOGBI, P. Investimentos de impacto socioambiental remuneram pessoa física em até 1% ao mês. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/investimentos-de-impacto-remuneram-pessoa-fisica-em-ate-1-ao-mes/>. Acesso em: 17 out. 2020.

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