Como não perder dinheiro com o efeito manada

O que é Efeito manada?

Você já notou que se uma pessoa escolhe entre 2 restaurantes vazios que se encontram lado a lado, a próxima pessoa tende a escolher o mesmo da anterior, e a terceira também, e assim por diante, criando um efeito em cascata, ou até mesmo se uma pessoa que se encontra na rua, ao se deparar com várias outras pessoas olhando para cima, é muito provável que ela instintivamente olhe para cima também.

Esse comportamento é conhecido como efeito manada, ou o popular “Maria vai com as outras”. Isso acontece, porque a forma como as outras pessoas pensam ou agem influenciam, diretamente, sobre o nosso processo de tomada de decisão.

Assim, o comportamento de manada acontece em situações que as pessoas agem como a maioria, sem considerar o motivo. O comportamento de manada oferece proteção psicológica, e faz com as pessoas se sintam parte de um grupo, fazendo com que elas se deixem levar sem fazerem os julgamentos necessários.

Efeito Manada no Mercado Financeiro Brasileiro.

Quando se trata de mercado financeiro e da Bolsa de Valores, é quase impossível deixar esse tema de lado. Muitas pessoas pensam que os investidores da renda variável, de modo geral, tomam decisões extremamente racionais, fazem análises minuciosas e sempre têm total controle emocional sobre seus atos. A realidade é bem diferente desse pensamento, a verdade é que só o efeito manada explica por que, em muita das vezes, os investidores repetidamente tendem a comprar aquela ação “quente” na alta e as venderem na baixa, sendo que isso causa o pior retorno financeiro possível.

Isso se deve principalmente ao fato de que, na percepção do indivíduo, se todos perdem juntos diante do cenário financeiro, acaba sendo uma situação mais branda, do que no caso dele ter perdido sozinho e os outros estivessem ganhando ou mantendo a sua riqueza. Como afirma o provérbio português, “é melhor errar com muitos, do que acertar sozinho.”

Como relata o Investidor Thiago Nigro, em seu livro, do mil ao milhão, provavelmente o exemplo mais icônico de efeito manada tenha sido o que aconteceu com a ações da Mundial, MNDL3, empresa que fabrica utensílios para o lar e para uso pessoal, como vestuários e calçados. No dia 6 de Abril de 2011, suas ações abriram em uma alta, sem motivo aparente, de 12,5%, fechando o pregão com uma alta de 24,31%, seu preço subiu de 28,26 reais no dia 5 de abril de 2011 para 35,13 reais no dia 6 de abril de 2011.

As ações da mundial não pararam por aí, elas subiram muito mais se comparado com esse meros 24%. Vale lembrar que as ações não tinham muita liquidez, se comparado com as Blue Chips do mercado, mas, ainda sim, dois meses depois no dia 1° de junho, suas ações valiam incríveis 130,89 reais, totalizando uma alta de 363,16%. Nesse ponto nada mais interessava, fundamentos, indicadores e precificação da empresa, que aliás naquele mesmo ano terminou com um prejuízo de 39 milhões de reais.

O mercado era pura euforia com este papel, muitas pessoas tinham a plena convicção de que se comprassem essa ação, em apenas um dia ela se valorizaria em 10%. No dia 11 de Julho daquele ano, as ações alcançaram o valor de 958,78 reais. Uma alta de 3.292,71%.

Gráfico de cotação das ações da Mundial:

No caso da Mundial, muitos investidores incautos começaram a comprar os papéis dela, porém num período muito curto de tempo tentaram revendê-los, para os mesmo investidores que já tinham realizado um lucro considerável com elas, ambos movidos pela ganância e posteriormente desarmados pelo medo. Em pouco tempo, por não se tratar de uma empresa com fundamentos sólidos, depois dessa alta absurda, os papéis entraram em queda, com todos querendo se livrar das ações o mais rápido possível. Em nove dias, as ações despencaram para 112,79 reais, uma queda de 88,24%.

O motivo da ganância pela ação da mundial era bem simples. Se ela se mantivesse estável a essa taxa de valorização de 3.292,71% ao ano, uma simples aplicação de 10 mil reais renderia incríveis:

  • 339 mil reais em um ano
  • 449 BILHÕES de reais em 5 anos

Porém todos sabemos que essa taxa de crescimento é insustentável no longo prazo, isso faria com que a empresa pudesse crescer infinitamente. E como se trata de renda variável, acertar em momentos de tamanha variação sem nenhum motivo aparente, é extremamente improvável.

Podemos detalhar visualmente o efeito manada pelo gráfico elaborado pelo economista Richard Rytenband:

Na imagem, o primeiro ponto é identificado como smart money, ou seja, quando investidores qualificados compram um determinado ativo por um valor baixo. Nesse ponto, a mídia especializada começa a falar sobre o ativo, mas de forma bem cautelosa, porém aos poucos os investidores institucionais começam a buscar sobre o ativo, e consequentemente são atraídos, levando a uma leve alta nos preços. Com essa alta progressiva, a mídia especializada aumenta os holofotes sobre esse ativo, e começa a falar de maneira muito mais otimista sobre aquela empresa, atraindo cada vez mais pessoas e elevando mais o seu preço. Com o seu valor muito elevado, o público em geral começa a saber e a comprar o papel, seja por amigos ou pela mídia não especializada, que nesse ponto também já passa a notificar sobre os papéis e a possibilidades de ganhos extraordinários seja no curto, médio ou longo prazo, criando o último pico de subida.

A partir desse ponto, o valor do papel já se encontra em um preço quase insustentável, sendo negociado com múltiplos absurdos. Muitos agentes especializados já elencam o papel como sendo muito caro, e quase qualquer notícia ruim pode causar uma queda gigantesca no preço do ativo. Quem entrou tardiamente percebe que o papel já não sobe mais tão rapidamente, e começa a entrar em estado de medo, querendo se livrar o mais rápido possível dele, porém, nesse ponto, poucas pessoas vão querer comprá-lo, fazendo com que o pânico atinja o público em geral, e que o preço do papel despenque.

Como não perder dinheiro com efeito Manada.

De acordo com Aquiles Mosca, em seu livro Finanças Comportamentais, a manada proporciona aquilo que chamamos de conforto psicológico. Para evitar esse comportamento, de acordo com ele, existem dois requisitos mínimos para um investidor: paciência e disciplina.

Se tratando da paciência, deve se ter em mente que a visão de longo prazo é imprescindível, pois ativos de risco precisam de tempo, e, historicamente, as altas na bolsa compensam os períodos de baixa.

Já se tratando da disciplina, ela se encontra basicamente em definir uma porcentagem que você deseja alocar em renda variável e tentar sempre mantê-la, “Mantenha a alocação constante”, ressaltou Mosca, que exemplifica da seguinte forma:

  • Se você se encontra com 20% do seu patrimônio em bolsa e ela cai 50%, terá 10% do patrimônio em bolsa, logo você terá que comprar ativos até atingir os 20% determinado novamente.
  • Se você se encontra com 20% em bolsa e ela sobe 50%, terá 30% em bolsa, logo você terá que vender ativos até retornar aos 20% determinado novamente. (ou parar de comprar, colocando em outros ativos, até que a proporção volte aos 20%.)

Logicamente que todas as vendas e compras de ativos devem ser feitos de formas extremamente conscientes, passando por uma análise padrão, da mesma forma que foram feitas as análises dos papéis previamente adquiridos.

Aplicando essas ideias, mecanicamente, o investidor estará comprando na baixa e vendendo na alta, que é o que dita o bom senso, porém, não é o que maioria dos investidores fazem, por definição, porque isso envolve se opor ao mercado, e que, portanto, muitas vezes se deixam levar pela ganância e pela manada.

Além disso, o efeito manada pode ser uma faca de dois gumes, para o investidor inteligente é, nesse momento, em que as massas se afobam e entram em estado de pânico, que surgem as grandes oportunidades na Bolsa de Valores.

Texto por Paulo Damacena

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