Bancos Não Tradicionais

Bancos Não Tradicionais

Texto por: Breno Barros  – Assessor de Projetos

O presente artigo tem como objetivo descrever o papel dos bancos digitais no cenário atual e futuro do país. Foram comparados e definidos os bancos tradicionais, as fintechs de crédito e os bancos denominados digitais. 

Os bancos tradicionais são aqueles que possuem uma grande quantidade de agências bancárias espalhadas por todo o país. No Brasil possuímos cinco: Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaú e Santander, onde esses formam há décadas um oligopólio quanto a serviços bancários. Especificamente, possuem 83,4% dos depósitos bancários e 83,7% do market share de crédito ao final de 2019. 

Essa concentração pode ser compreendida nas últimas décadas pela análise do Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (PROER), lançado em 1995, e pela crise econômica de 2008. Enquanto o primeiro estimulou, entre outras ações, a incorporação de ativos de bancos menores por bancos maiores, a crise de 2008 implicou em dificuldades significativas para entidades menores, que tiveram que enfrentar a retirada em massa de recursos em curto período e, em alguns casos, falência. 

Além disso, em certo ponto, o lado cultural financeiro dos brasileiros, ou seja, onde a população em geral aloca seu capital e como o administram, “aceitou” que esses grandes bancos são os locais mais apropriados para aplicar e transacionar seu capital, limitando durante anos sua escolha entre essas poucas instituições financeiras. O primeiro contato com o Sistema Financeiro Nacional (SFN) costuma acontecer através das agências físicas dos grandes bancos tradicionais. Ademais, é comum, há muitos anos, a necessidade de uma conta corrente ou poupança para exercer uma atividade remunerada formal e, muitas vezes, como autônomo.

A modernização dos serviços financeiros vem sendo discutida há algum tempo e algumas iniciativas surgiram desse movimento, como as fintechs e os bancos digitais. Apesar de não serem classificadas como bancos, as fintechs (abreviação de financial technology — “tecnologia financeira” em português) são empresas focadas no desenvolvimento de produtos financeiros digitais, sendo o uso da tecnologia o seu diferencial no mercado. O número de clientes e serviços prestados vem crescendo bastante ao longo dos últimos anos, se destacando principalmente através do público jovem. Um exemplo é a Nubank, que em janeiro de 2020 atingiu a marca de 20 milhões de clientes. As fintechs passaram a ser reguladas pelo Banco Central por meio da resolução 4.656, de 26 de abril de 2018, se tornando efetivamente novos competidores no mercado de créditos e produtos financeiros. 

Por outro lado, os  bancos digitais, ao contrário do que muitos pensam, não possuem uma legislação própria e se intitulam dessa forma por motivos mercadológicos. Assim como algumas fintechs, muitos bancos se intitulam digitais por não possuírem agências físicas e todo o processo, desde a abertura de contas até o atendimento ao cliente, ser feito de forma digital. A entrada desse modelo bancário se baseia em aberturas de contas facilitadas, taxas menores ou inexistentes, e um serviço de atendimento melhorado e mais humanizado. Como informação adicional, em 2020, esse movimento de migração para o digital foi impulsionado pela pandemia do coronavírus no país. 

Além do surgimento de novas fintechs e bancos digitais, os bancos tradicionais, que possuíam altas taxas, atendimento precário, e altos spreads¹, se viram obrigados a se modernizar e começaram ou impulsionaram seu processo de digitalização. Assim, criaram seus próprios bancos digitais, sendo o Iti do Itaú, Next do Bradesco e o Superdigital do Santander, para competir com o movimento levantado pelas fintechs. 

¹Spread bancário é a diferença entre as taxas de captação e de empréstimo de dinheiro exercidas pelo banco. Usualmente, as taxas para captação são pouco menores que o CDI, enquanto as taxas de empréstimo são bem maiores que o CDI.

A porcentagem de downloads dos aplicativos para tablets e smartphones de instituições financeiras no Brasil era dominada pelos tradicionais Bradesco, Itaú, Caixa e Santander, que representavam 99% em 2014. Com o aumento da imersão digital da sociedade e os estímulos do Banco Central a essa concorrência, esses grandes bancos passaram a ocupar menos da metade do total de downloads em 2020 (Imagem 1).

Imagem 1: Divisão entre os downloads de bancos tradicionais e bancos digitais, de 2014 a 2020.

Fonte: UBS

O aumento dessa concorrência é benéfico ao SFN e tem sido encorajado pelo Banco Central. Este ainda vem buscando formas eficientes de legislar sobre os ditos bancos digitais. Os consumidores são os que mais saem ganhando com essa competição no setor. Porém, ainda é uma realidade distante a quebra desse oligopólio tão sólido. Além disso, na contramão do esperado, o banco com o maior índice de reclamação atualmente é um banco digital, o Banco Inter, de acordo com o Banco Central (Tabela 1).

Tabela 1: Ranking de reclamações de bancos e financeiras.

Fonte: Banco Central do Brasil

2 Número de reclamações reguladas procedentes dividido pelo número de clientes e multiplicado por 1.000.000.

3 Quantidade de ocorrências (irregularidades), associadas a reclamações encerradas no período de referência, em que se verificou indício de descumprimento, por parte da instituição, de lei ou regulamentação cuja competência de supervisão seja do Banco Central do Brasil.

4 Total de clientes na base conjugada do Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional (CCS) e do Sistema de Informações de Crédito do Banco Central (SCR).

Atrás do Banco Inter, pode-se notar, estão dois grandes bancos, já bem consolidados no setor: Itaú e Caixa Econômica Federal. No geral, anteriormente, esses grandes bancos eram os atores principais dos rankings de reclamações. Contrariando esse fato, nos últimos meses, houve uma melhora na avaliação dos grandes bancos, que agora começam a ter avaliações próximas aos novos competidores do setor.

Por mais incerto que seja o futuro, é perceptível a imersão na transformação tecnológica que vem ocorrendo gradativamente no setor bancário, assim como disse David Vélez, fundador da Nubank, no podcast oficial da Brasil at Silicon Valley: “Daqui a 10 anos a maior empresa de saúde no Brasil vai ser uma empresa de tecnologia; a maior empresa financeira vai ser uma empresa de tecnologia; a maior empresa de infraestrutura vai ser uma empresa de tecnologia”. 

Assim, como consequência dessa imersão, notou-se o surgimento dos bancos digitais e fintechs, estas recentemente reguladas no país e aquelas ainda sem possuir regulamentação específica. Por um lado, as facilidades promovidas pela digitalização de serviços e produtos fornecidos por essas instituições auxiliam na expansão desses organismos, alguns com dezenas de milhões de clientes. Todavia, as facilidades digitais não imunizam essas instituições de receberem reclamações de seus clientes, uma vez que algumas dessas instituições encabeçam o ranking de reclamações do Banco Central. O que se tem de certo é que os bancos não tradicionais ainda têm muito espaço para crescimento, e trazem consigo uma competição sadia para o setor, quebrando as barreiras culturais e ampliando as opções para os clientes. 

REFERÊNCIAS

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Cidadania Financeira – Capítulo 1. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/Nor/relcidfin/cap01.html>. Acesso em: 30 jan. 2021.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Ranking de reclamações de bancos e financeiras. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/rankingreclamacoes>. Acesso em: 02 fev. 2021.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Fintechs de crédito e bancos digitais. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/conteudo/relatorioinflacao/EstudosEspeciais/EE089_Fintechs_de_credito_e_bancos_digitais.pdf>. Acesso em: 30 jan. 2021.

NUBANK. Sobre Nós. Disponível em: <https://nubank.com.br/sobre-nos/>. Acessado em: 31 jan. 2021.

SUNO. Bancos digitais ultrapassam tradicionais em downloads em 2020, diz UBS. Disponível em: <https://www.suno.com.br/noticias/bancos-digitais-se-destacam-frente-os-tradicionais-diz-ubs/>. Acesso em: 01 fev. 2021

G1. Cinco maiores bancos comerciais detinham 83,7% do mercado de crédito no fim de 2019, revela BC. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/06/04/cinco-maiores-bancos-comerciais-detinham-837percent-do-mercado-de-credito-no-fim-de-2019-revela-bc.ghtml>

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