As tensões entre China e Estados Unidos: uma perspectiva histórica

De acordo com Mankiw, economista norte-americano, o comércio é bom para todos. Isso se dá a partir do conceito de vantagem comparativa, em que o fabricante passa a produzir aqueles bens que possuem um menor custo de oportunidade, isto é, proporcionam o melhor benefício com a menor renúncia de outros bens. Partindo desse princípio, por que então os Estados Unidos e a China entraram em conflito comercial?

Para responder esse questionamento faz-se necessário adentrar um pouco na história desses países, em especial a história chinesa.

A ascensão de Deng Xiaoping e as reformas na China

Durante o governo de Mao Tse-tung, a China viveu momentos de instabilidade de ordem política, com a Revolução Cultural, e econômica, com o Grande Salto para Frente. Porém, com o fim da Era Maoísta, Deng Xiaoping assume o comando em 1978 com o objetivo principal de restaurar a estabilidade, de modo que o Partido Comunista Chinês (PCC) conseguisse manter seu poder internamente. Para tal, Deng teve de promover reformas.

Para resolver os conflitos internos do partido, Deng decidiu ser menos rígido na relação de poder. Assim, um de seus princípios era de que as decisões deveriam ser tomadas de maneira mais coletiva e sem a exaltação da figura do líder, já que foi contemporâneo das falhas desse modelo, tanto com Mao quanto com Stalin. Apesar dessa relativa abertura, a intenção nunca foi se aproximar da democracia ocidental e nem expandir esses direitos políticos para fora do PCC – evidenciado pelo Massacre da Praça Celestial.

Além disso, inspirado pelo modelo leninista da Nova Política Econômica, foi criado o que se chamou de “socialismo com características chinesas”. Considerado muito mais pragmático do que ideológico, Deng julgava ser necessário haver avanços científicos e tecnológicos no país, como o ocidente, e, para tal, deveria adentrar no comércio mundial e manter uma política externa mais estável – uma clara ruptura com o isolacionismo maoísta.

Diante de um cenário de mercado interno fraco ($2500/ano de PIB per capita ao fim do governo de Mao) e uma população numerosa, a China decidiu engatar em uma nova economia baseada na exportação de setores industriais que demandavam mão de obra em abundância (destacam-se os setores de brinquedos, têxtil, de calçados e montagem de eletrônicos). Essa política de liberalização foi seguida pela criação de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) ao longo da costa chinesa e na proximidade de Hong Kong. Tudo isso num contexto de avanços em tecnologias de comunicação e transportes, que facilitaram a desconcentração industrial e formação das Cadeias Globais de Valor. Desse modo, houve uma facilitação do investimento estrangeiro na China, posto que agora as empresas poderiam aproveitar as vantagens comparativas de cada país (a China possuía uma mão de obra muito barata e incentivos fiscais nas ZEEs).

Com o apaziguamento de conflitos intra partidários, uma abertura ao comércio global e uma política externa mais próxima do ocidente, as políticas de Deng Xiaoping indubitavelmente serviram de base para o grande crescimento econômico experienciado pela China.

A Entrada na OMC (2001)

“Hoje, a Câmara dos Representantes deu um passo histórico em direção à prosperidade prolongada na América, à reforma na China e à paz no mundo (…) isso vai abrir novas portas para o comércio internacional americano e uma nova esperança para mudanças na China”. (Bill Clinton, 2000, tradução nossa)

A frase acima, proferida na ocasião da aprovação da normalização do comércio americano com a China, resume bem o que o governo americano esperava da entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC): o comércio mais livre deveria levar a uma transição para o regime democrático na China, forçar o país a diminuir tarifas de importação de bens americanos e legitimar a OMC como instituição mundial num contexto de multipolaridade.

No entanto, as coisas não aconteceram exatamente assim. De fato, consumidores americanos se beneficiaram da possibilidade de comprar produtos mais baratos e algumas companhias se beneficiaram de um novo mercado muito grande. No entanto, com a perda de empregos e os investimentos de empresas americanas indo para a Ásia, a posição da China como “indústria do mundo” foi considerada a grande culpada pela desaceleração econômica dos EUA e Europa no século XXI.

Esse momento foi crucial para o grande crescimento atingido pelo país asiático neste século, no entanto, isso não refletiu em suavização da ditadura chinesa. Ao contrário, o partido manteve uma regulação forte sobre as empresas privadas, com altas barreiras à internet e um regime cada vez com mais controle sobre os cidadãos.

2008: a mudança de paradigma até a ascensão de Xi Jinping (2012)

A partir da crise de 2007, a China procurou ser menos dependente das exportações e fortalecer o mercado interno, já que, nesse momento, seus principais mercados simplesmente perderam capacidade de consumir. Embora o mercado americano ainda represente seu maior mercado consumidor, essa dependência perdeu um pouco de força com esse movimento.

Com a ascensão de Xi ao poder, algumas coisas mudaram no cenário político em relação ao que acontecia no período de Deng. Dentro do PCC, houve uma centralização do poder, com menos abertura às novas gerações, menos espaço para as alas dissidentes do partido e um fortalecimento da figura do líder. Isso ocorreu, pois Xi acreditava que uma das razões para a queda da União Soviética foi seu afastamento da ideologia. Talvez a sua medida mais polêmica tenha sido acabar com a lei que limitava o seu tempo de mandato.

Para o resto da China, houve um fortalecimento no controle de regiões periféricas habitadas por minorías étnicas (Tibet e Xinjiang). Isso ocorreu devido à percepção de que essas regiões poderiam ser o “Afeganistão chinês”, também em comparação com a União Soviética. Externamente, a China passou a adotar uma política mais ativa, como nas questões de disputas territoriais no Mar da China e o conflito na fronteira sino-indiana.

Made in China 2025

Apresentado em 2015, China 2025 é um projeto liderado pelo governo chinês que visa reduzir a dependência de tecnologia estrangeira e tornar o país um grande player em indústrias high-tech. O objetivo do plano seria tornar o país autossuficiente em setores de alta tecnologia, fazendo a China sair de um país exportador de produtos de baixo valor agregado para uma China alinhada com a indústria 4.0.

Presente em quase qualquer produto eletrônico feito atualmente, o plano China 2025 tem um grande foco em semicondutores. Isso se dá, pois ela é responsável por 60% da demanda mundial do produto, porém produz apenas 13%.

Para atingir esses objetivos, a China tomou as seguintes medidas:

  • Estabelecimento de metas específicas – Assim, todas as empresas chinesas podem fazer decisões baseadas no plano;
  • Subsídios diretos – Ampliação do financiamento estatal, empréstimos a juros baixos e incentivos fiscais;
  • Investimento internacional e aquisições fora do país – Companhias chinesas passam a comprar empresas de setores estratégicos em outros países, notadamente as de semicondutores. O valor estimado de aquisições chinesas nos EUA em 2016 alcançou 45 bilhões de dólares.
  • Mobilização de empresas apoiadas pelo Estado – Isso inclui companhias como ZTE e Huawei, que, mesmo privadas, recebem suporte do governo.
  • Acordos de transferência compulsória – Companhias estrangeiras muitas vezes são obrigadas a realizar joint ventures, que requerem o compartilhamento de propriedade intelectual e um know-how avançado com empresas locais.

Pontos de conflito hoje

Atualmente, a construção da tensão entre China e Estados Unidos pode ser resumida em três fatores: geopolítico, tecnológico e econômico. Como observado nos parágrafos anteriores, esses fatores são recorrentes, diferenciando-se apenas pelo seu teor ao longo da história. Cabe, agora, atualizar cada um deles para compreender o cenário que se expõe ao mundo.

(Nota: em se tratando de uma Liga de Investimentos, o aspecto geopolítico e tecnológico, serão abordados de maneira menos aprofundada)

1 – Geopolítica

Com o desenvolvimento econômico e uma política externa mais ativa desde a ascensão de Xi ao poder na China, o país conseguiu, em pouco tempo, aumentar sua influência geopolítica como mostra a Figura 1. Hoje, a China tem se mostrado uma nação capaz de ameaçar a hegemonia americana, pelo menos no contexto asiático, no que tange às questões territoriais do Mar da China e da fronteira com a Índia, por exemplo.

Figura 1 – Estimativa da posição relativa de grandes impérios. Fonte: Ray Dalio – The Big Cycles over the last 500 years

Em relação aos rumores de que isso pode se tornar a nova Guerra Fria, deve-se lembrar que os EUA e a URSS não possuíam relações econômicas, caso oposto ao que ocorre entre China e Estados Unidos.

2- Tecnologia

Embora a diferença entre a capacidade de produção científica ainda seja notória entre EUA e China, ela vem diminuindo. Isso se deu através das joint ventures, da engenharia reversa e da aquisição de companhias de tecnologia ocidentais. Nesse sentido, os EUA acusam a China de adquirir tecnologias do ocidente que podem ser usadas para fins militares, além de de controle social, como inteligência artificial (IA) para reconhecimento facial e veículos autônomos.

Pode-se notar o quanto isso incomoda o ocidente a partir da frase de um dos membros do conselho econômico da Alemanha: “É surpreendente como economistas céticos do papel ativo do Estado na economia não têm problemas quando companhias de tecnologia avançada são adquiridas por investidores chineses. Mesmo que essas companhias sejam geridas por entes privados, é bem possível que o governo chinês esteja ativo no segundo plano” (tradução nossa).

3- Economia

3.1- Como a evolução da economia chinesa pode ter ajudado a desacelerar os EUA

Se considerarmos a expressão matemática para o Produto Interno Bruto (PIB) abaixo, algumas considerações podem ser tecidas.

PIB = C + I + G + X – M

C = Consumo

I = Investimento

G = Gastos governamentais

X – M = Balança comercial

Como já apresentado, a China tem sido acusada de ter grande influência na desaceleração econômica dos EUA neste século. Isso se dá, pois muitas indústrias americanas (e ocidentais como um todo) transferiram seus parques industriais para a China, buscando mão de obra barata, incentivos fiscais e subsídios. Podemos, portanto, inferir que o “I” não obteve muita margem de crescimento, pois mesmo as empresas americanas investem em outros lugares que não nos EUA, especialmente na China em 2014, 60% das exportações chinesas para os Estados Unidos eram de empresas que não tinham sua sede na China.

Assim, a China passou a ser a “indústria do mundo”, exportando seus produtos baratos, especialmente para mercados de consumo intensivo com os Estados Unidos, que tem a capacidade de absorvê-los. Desse modo, a China passou a representar 47% do déficit da balança comercial americana (375 bilhões de dólares em 2017).

Consequentemente, dois dos fatores para medir o PIB foram diretamente afetados pela competição chinesa: “I” e “X-M”. Além disso, ainda há de se considerar os empregos que os Estados Unidos perderam para a China no setor secundário, especialmente na região conhecida como “Cinturão da Ferrugem”, conforme apresentado na figura 2.

Figura 2 – Curva de emprego nos Estados Unidos (1991-2011). Na ordem da legenda: Empregos na Indústria / Empregos Fora da Indústria/ Empregos Totais. Fonte: MIT.

É difícil supor o quanto esse efeito é devido à competição chinesa, já que a automação também atinge o setor, porém se estima que tenha sido em torno de 1 milhão de empregos apenas no setor industrial. Isso também influencia na conta do PIB, já que, segundo a Lei de Okun, existe uma relação inversamente proporcional entre desemprego e expansão do PIB (que nos EUA estaria em torno de 2% a menos de crescimento no PIB a cada ponto percentual a mais de desemprego).

3.2 – China e o comércio global

O que a China é acusada de fazer é se beneficiar das legislações globais de comércio, enquanto ignora as regras que ela considera conveniente. Desde 2001, 43 casos foram abertos contra a China na OMC. Os EUA eram pelo menos um dos signatários em 23 deles.

As acusações contra a China eram principalmente:

  • Subsídios ilegais – Visam incentivar a exportação de produtos via desconto, incentivos fiscais e empréstimos baratos, de maneira a quebrar as regras da OMC, segundo seus acusadores.
  • Discriminação de bens de fora – Priorizando as indústrias locais, por exemplo, se a Volkswagen quiser operar na China, terá de comprar uma certa parte de fornecedores locais, caso contrário, deverá pagar mais do que o dobro das taxas-padrão para importação de autopeças.
  • Controle de supply chains – Favorecendo a exportação e produtos finais, em detrimento de produtos intermediários que possam ser utilizados por indústrias de outros países. Para tanto, limita-se o acesso a minerais chineses e materiais brutos através de taxas e quotas, dando às indústrias chinesas uma vantagem injusta.

Além de quebras de leis internacionais, o “dragão do oriente” ainda quebra o “espírito” do livre comércio com a manipulação da moeda, por exemplo. O que se argumenta é que os países são abertos à China, mas a recíproca não é verdadeira.

Por outro lado, a China alega que, não só as regras da OMC são ultrapassadas, já que não são atualizadas há 25 anos, mas que tanto os EUA quanto a União Europeia já descumpriram ao menos uma regulação no passado.

Algumas das respostas dos países

Embora já considere bem sucedido meu objetivo de explicar os porquês das tensões entre os dois países, deixo a meus leitores um pouco de como alguns países reagiram a esses fatos.

1 – EUA

  • CFIUS (The Committee on Foreign Investment in the United States) – É a agência responsável por revisar as aquisições de companhias americanas por investidores estrangeiros. Ela já era usada para o propósito de frear alguns investimentos chineses no governo Obama, porém, com a chegada de Trump à Casa Branca, esse trabalho tem sido intensificado. O atual presidente dos Estados Unidos ainda reclamou que o comitê estava com menos funcionários e financiamento do que necessário para conter a China.
  • Tarifas de importação – Usada para bloquear a superprodução de alguns bens na China. O governo americano já impôs uma taxa de 25% em vários bens importados de lá. Além disso, a Casa Branca ameaçou expandir esse imposto a todos os bens chineses caso um acordo comercial não seja alcançado.
  • Restrições a empresas de tecnologia – Empresas como a ZTE e a Huawei foram consideradas uma ameaça à segurança nacional americana devido ao potencial de espionagem de seus aparelhos.
  • Questionamentos acerca da OMC – Trump questiona a capacidade da organização de conter os abusos chineses.

2 – Europa

Tanto a Alemanha quanto a França já impuseram algum tipo de restrição às aquisições chinesas, no entanto há grande dificuldade de implementação no bloco como um todo, já que países menores, como Portugal e Grécia, argumentam que isso pode atrapalhar seu desenvolvimento econômico.

O assunto passou a estar mais em pauta depois de aquisições chinesas de gigantes industriais alemães, como Daimler e KUKA.

3 – Japão e Austrália

A Austrália também já interrompeu algumas negociações para aquisições de empresas locais. Vale ressaltar que o país é o segundo maior em termos de investimentos internacionais chineses desde 2007, atrás apenas dos EUA.

O Japão, por sua vez, é um país que tem incentivado suas indústrias a sair da China, gastando mais de 2 bilhões de dólares para que empresas voltem ao território nacional e 200 milhões para as empresas que quiserem sair da China, mas não voltar para o Japão.

Em suma, os motivos de toda essa tensão são variados, extremamente sensíveis e foram sendo construídos ao longo de mais de 40 anos, das reformas de Deng, transitando pela abertura ao comércio mundial e alcançando o status de “Indústria do mundo”, até as mudanças pós 2007 e a chegada de Xi em 2012. Daí para a frente, é muito difícil prever o que ocorrerá. A China conseguirá superar os EUA em influência política, tecnologia ou economia? Tudo o que sabemos é que, qualquer que seja a direção que esse conflito tome, alterações significativas no futuro da economia mundial ocorrerão.

Escrito por: Aaron Horowitz

Fontes

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