As Demonstrações Financeiras – Parte 2

As Demonstrações Financeiras – Parte 2

E aí gente, estão preparados para a segunda parte da nossa série sobre as demonstrações financeiras? Hoje vamos falar sobre o balanço patrimonial (BP). Para deixar o artigo mais conectado com a realidade, vamos pegar uma empresa de verdade para seguir a linha de raciocínio e comparar o seu BP atual, tanto com os seus BPs antigos quanto com os balanços de outras empresas do mesmo setor.

Para o nosso exemplo, nós usaremos a Companhia Paranaense de Energia, a Copel, uma empresa que atua no setor de transmissão, geração e distribuição de energia elétrica, com uma pequena parte do seu negócio associada a outros setores, como o de distribuição de gás e — embora em processo de desmantelamento — de telecomunicações. Como o nosso propósito é falar de demonstrações financeiras de maneira geral, não pretendemos detalhar os balanços da Copel para além daquilo que se pode, por analogia, entender para outras empresas.

Pelas limitações do enquadramento das tabelas numa página, às vezes será necessário cortar alguns itens menos relevantes do BP, mas eu vou me esforçar para que nenhuma parte importante fique de fora. Vamos começar então com uma explicação da regra principal do BP.

A Equação Básica da Contabilidade

Como nós falamos no primeiro artigo da série — que, caso você ainda não tenha lido, recomendamos que você o faça antes de continuar este artigo — tudo o que a empresa possui é propriedade de alguém. Isso quer dizer que todo ativo declarado tem a sua contraparte no passivo, de forma que as duas contas são, necessariamente, iguais. A equação que denota isso é conhecida como a equação básica contábil. Por consequência, também se segue que qualquer variação em um, possuirá uma variação igual no outro. O que foi apresentado pode ser resumido nas duas equações abaixo:

Ativos = Passivos ou Ativos = Passivos + Patrimônio Líquido

Ativos = Passivos ou Ativos = Passivos + Patrimônio Líquido

[ “Δ” denota variação. Por exemplo “ΔAtivos” significa “Ativo final – Ativo inicial”.]

Existem algumas justificativas para separar o patrimônio líquido dos demais passivos da empresa quando pensamos, por exemplo, na capacidade da empresa de pagar suas dívidas. Por agora, entretanto, tanto faz uma ou outra, apenas tenha em mente que o patrimônio líquido não deixa de ser uma obrigação da empresa.

Ambas as contas, ativo e passivo, podem ainda sofrer divisões. O ativo pode ser dividido em ativo circulante (AC) e ativo não circulante (ANC) se o tempo estimado para sua liquidação, com o menor prejuízo do valor principal quanto possível, for menor ou maior que um ano, respectivamente. Por exemplo, uma linha de operação de uma planta industrial precisa de muito mais tempo para se achar um comprador disposto a pagar um preço justo do que uma aplicação no CDB do banco que a empresa deixa seu caixa guardado e que ela pode sacar sem problemas.

O passivo, analogamente, pode ser dividido de acordo com o prazo de vencimento da obrigação. Aquelas que vencem em menos de um ano integram o passivo circulante (PC) e as demais, o passivo não circulante (PNC). Aqui, a distinção do patrimônio líquido (PL) também é feita, porque é um passivo com vencimento indefinido — ele estará lá enquanto a empresa mantiver seu negócio operante. Dessa forma, podemos refazer nossas equações, da seguinte forma:

AC + ANC = PC + PNC + PL

AC +ANC = PC + PNC +PL

Um exemplinho para esclarecer:

Tabela 1 – BP Consolidado de 3T20 da Copel. Valores em R$ mil. Adaptado.

Eu imagino que você esteja pensando numa situação em que as contas de ativo e passivo não batem, porque a princípio é um pouco difícil entender que tudo que aparece em um tem uma contraparte no outro; mas lembre-se: as contas sempre devem fechar. Se uma empresa tem mais dívidas do que ela tem de bens, isso quer dizer que o patrimônio dela será negativo. Entretanto, isso não quer dizer que os sócios terão que tirar dinheiro do próprio bolso pra pagar os credores, mas quer dizer que eles não têm direito a nenhum ativo da empresa. Além disso, a empresa, se fosse liquidada, não iria conseguir pagar seus credores no valor integral.

Os Itens do Balanço Patrimonial

Agora vamos descrever um pouco dos itens que estão no BP. Para tanto, vamos solicitar que o leitor acesse o link e vá para a Página 3. Vamos nos limitar àquelas contas mais importantes, as que apresentam os maiores números.

Começando pelos ativos, nós temos:

  1. “Caixa e equivalentes de caixa” é o dinheiro que a companhia possui em conta ou aplicado em títulos de renda fixa com alta liquidez;
  2. “Clientes” são os valores a receber por um serviço já prestado. Noutras empresas isso costuma aparecer sob o nome de “Contas a receber”;
  3. O item “Outros créditos” se refere, principalmente, a um resultado positivo de operações de compra e venda de contratos futuros de energia elétrica;
  4. O tópico “Outros tributos a recuperar” se refere, principalmente, a um crédito recebido devido a mudanças tributárias com efeito retroativo;
  5. O elemento “Repasse CRC ao Governo do Estado do Paraná” também se refere a um crédito tributário a ser compensado;
  6. “Contas a receber vinculadas à concessão”, “Ativos de contrato” e praticamente todo o “Intangível” se referem aos contratos de concessão e ativos pertencentes a eles, relacionados ao negócio da empresa de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, bem como distribuição de gás canalizado;
  7. A conta “Investimentos” se refere às participações da companhia em outras sociedades, seja como controladora ou em conjunto. Essa conta varia drasticamente da “controladora” para o “consolidado”, porque a primeira é uma sociedade que é feita por várias outras, tendo, em si mesma, relativamente poucas operações, enquanto que o segundo é o conglomerado que compõe a empresa mãe e aquelas que ela detém controle total;
  8. “Imobilizado” é a conta que identifica as propriedades físicas da empresa, já depreciadas. Por exemplo, terrenos, edificações, equipamentos e outras infraestruturas e posses compõem esse valor.

No passivo, nós temos:

  1. “Obrigações Sociais e Trabalhistas” está relacionada a algum tipo de remuneração devida aos empregados que ainda não foram pagas;
  2. “Fornecedores” reúne contas devidas àqueles que forneceram algum produto ou serviço à empresa;
  3. “Imposto de renda e contribuição social” agrupa os impostos a recolher da empresa;
  4. “Empréstimos e financiamentos” e “Debêntures” se referem às formas de captação de dinheiro pela empresa para dar continuidade as suas atividades, sobre as quais incidem juros. [Note que contas como fornecedores, impostos a recolher etc. podem e geralmente incidem juros ou alguma correção monetária também];
  5. “Pesquisa e desenvolvimento e eficiência energética” se refere a um saldo — reserva — destinado ao investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D);
  6. “Outras contas a pagar” é o passivo análogo ao “Outros créditos” declarado no ativo;
  7. “PIS e Cofins a restituir aos consumidores” se refere às contas correspondentes ao “Outros tributos a recuperar” declarada nos ativos que serão restituídas aos consumidores.
  8. “Provisões para litígios” é uma reserva constituída para pagar as perdas processuais da empresa.

E, finalmente, temos o patrimônio líquido, que é o que sobra para os sócios. Ele próprio possui suas divisões internas, mas elas são de pouca relevância ao nosso propósito.

Uma Comparação Temporal dos Balanços Patrimoniais

Agora vamos comparar as magnitudes dos itens dispostos no BP contra os mesmos valores num período anterior. Para isso, frequentemente se usa as chamadas análises vertical e horizontal. Entretanto, a análise horizontal fica meio esquisita de se fazer quando comparamos mais de dois períodos. A análise vertical, por outro lado, funciona comparando um determinado item do ativo ou passivo contra o valor total dele. Usando a Tabela 1 lá em cima, o AC em 3T20 é cerca de 22% dos ativos e o ANC, os outros 78%. Analogamente, para os passivos, o PL é 45% dos passivos, o PNC, 39% e o PC, 16%.

Para montar uma tabela que se enquadre no período a se analisar, vamos considerar apenas aquelas contas que são mais relevantes nos balanços. Também vamos agrupar ativos e passivos de natureza pontual ou pequenos na linha “Outros”. Por último, colocaremos apenas as proporções do ativo em relação ao todo e não os valores de cada um.

Tabela 2 – Análise vertical dos BPs da Copel de 4T15 até 3T2020. Adaptado

Quando observamos as contas do BP contra o tempo, o que procuramos, geralmente, é avaliar a quantidade de dívidas da empresa e a sua liquidez. Analisando SOMENTE o BP, é positivo ver o patrimônio aumentando em relação ao todo, ver as dívidas diminuindo e um aumento de ativos líquidos, principalmente caixa, porque tudo isso representa um menor risco associado ao investimento na empresa. Entretanto, não se segue da afirmação anterior que isso seja ABSOLUTAMENTE vantajoso, porque essa diminuição do risco costuma acompanhar uma queda no rendimento também. Quando formos falar do DRE, isso será mais visível.

A primeira coisa que observamos nos balanços da Copel é o crescimento dos itens “Outros” e “Obrigações Tributárias” no balanço de 3T20. Isso se deve a um grande crédito recebido, com passivo correspondente, que não estava presente em anos anteriores. Os demais ativos e passivos não variaram tanto em termos absolutos, mas, por esse motivo, uma pequena distorção foi criada.

Um aumento no “Caixa” e uma diminuição nos “Recebíveis” são dois acontecimentos que por si só são positivos. O primeiro indica um aumento na liquidez e o segundo pode ser uma série de fatores, como menor defasagem entre a venda de um produto ou a prestação de serviço e o tempo de pagamento pelo mesmo, uma maior cobertura contra inadimplência etc.

A queda no “Imobilizado” se refere ao desmantelamento das operações de telecomunicação da empresa cujo valor foi realocado para “Outros”. Essa parte da operação foi leiloada e com um ágio de 70% sobre o valor ativo. Então, não há muito com o que se preocupar com a queda. Por conta disso, espera-se um aumento ainda maior no caixa da companhia quando o pagamento efetivamente ocorrer.

Por último, foi possível observar uma queda tanto percentual quanto absoluta do financiamento por títulos de dívida da companhia. Por si só, isso é um ponto positivo pro sócio que busca minimizar o risco do seu empreendimento.

Uma Comparação Setorial de Balanços Patrimoniais

Agora que já comparamos a empresa contra ela mesmo, que tal compararmos ela com outras empresas? Naturalmente, não podemos colocar a comparação em números absolutos porque empresas diferentes possuem tamanhos diferentes. Também não podemos analisar, para os propósitos deste artigo, tempo e empresas diferentes ao mesmo tempo, porque tornaria o artigo muito grande e a análise quadraticamente mais complexa.

Para isso, usaremos o mesmo artifício da análise vertical aqui, com os dados do último BP apresentado pelas empresas nas suas divulgações trimestrais.

Tabela 3 – Análise Vertical dos BPs de 3T20 da Copel (CPLE), Taesa (TAEE), ISA CTEEP (TRPL), Eletrobras (ELET) e EDP Energias do Brasil (ENBR). Adaptado.

Nota: CP significa curto prazo e LP significa longo prazo.

O primeiro ponto que salta aos nossos olhos nessa comparação é a diferença no imobilizado e como duas empresas que trabalham com energia elétrica podem ter essa conta valendo 0% do ativo total, uma vez que esse é um setor que depende pesadamente de infraestrutura. A resposta está na natureza do contrato de concessão dessas empresas com o poder concedente — o governo.

Ativos de concessão para transmissão de energia são classificados como ativos financeiros cuja empresa tem direito à indenização pelo investimento, no término do contrato, ao reverter a posse desses ativos para o poder concedente. Logo, o investimento em infraestrutura feito não se torna propriedade da companhia, mas, sim, um crédito a ser recebido. Isso também explica porque essas empresas possuem o maior ativo/contrato de concessão. A Taesa e a ISA CTEEP concentram suas atividades na transmissão de energia e, por isso, possuem um “Imobilizado” bem pequeno. As demais também possuem atividades na geração e distribuição de energia.

Nota: Caso não esteja clara a diferença entre transmissão e distribuição de energia, vai aqui uma explicação macarrônica: transmissão é o transporte da energia em altas tensões das usinas de geração até as subestações de energia [1]. Nas subestações, a tensão é diminuída e distribuída até o consumidor final [2]. Em outras palavras, transmissão é o caminhão que leva os bens de consumo da fazenda até o mercado e distribuição é o mercado que leva isso dos seus galpões até as prateleiras para você comprar.

As diferenças na aba “Investimentos” são devidas à maneira com que a companhia se organiza em colaboração com as outras. Como os dados foram retirados do balanço consolidado (empresa mãe + controladas), esses investimentos representam aqueles em que as empresas investidas são controladas em conjunto ou são coligadas [3].

Tanto no ativo quanto no passivo, vemos o item “Outros” bem expressivo para quase todas as empresas. As fontes dele são, basicamente, tributárias, como mostram os exemplos abaixo:

  1. Recurso litigado pelas companhias, pelo direito de retirar o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) da base de cálculo do PIS (Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público) e da COFINS (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social), com prescrição de cinco anos, a partir da data de decisão [4];
  2. Atraso no pagamento das indenizações devidas, com mora e atualização [5];
  3. Remensuração dos ativos de concessão, da receita anual permitida (RAP) e dos impostos devidos [5];

Por último, observamos que a Copel possui uma política de captação e endividamento, no que tange o BP, na média das outras companhias. Observamos uma política mais conservadora pela ISA CTEEP, com menos dívidas e um patrimônio proporcionalmente maior. A Taesa, por outro lado, se destaca com uma dívida de longo prazo que supera o seu patrimônio líquido e a EDP com um endividamento de curto prazo bem superior ao das demais. No próximo artigo, que falaremos sobre a demonstração dos resultados de exercício (DRE), poderemos ver como essas diferentes políticas de endividamento afetam os lucros das companhias.

O que foi e o que virá

Por hora, nosso objetivo foi meramente observar as proporções nos balanços da Copel com as das demais companhias. De maneira geral, podemos observar que ela possui proporções de endividamento, liquidez e investimentos com valores bem médios e nada fora do que se espera. Inferimos que algumas mudanças nas decisões de investimento e financiamento observadas ao longo do tempo, que são positivas em si mesmas, podem contribuir para uma piora nos resultados da companhia e que, portanto, não podem ser analisadas isoladamente. No próximo artigo, buscaremos enriquecer a discussão, observando como essas decisões temporais podem contribuir para uma mudança na rentabilidade da companhia ou como diferentes perfis de investimento e financiamento estão relacionados a diferentes rentabilidades e níveis de oscilação dos lucros. Até lá!

Referências

[1] Transmissão de Energia Elétrica. Wikipedia. Acessado em 18/11/20.

[2] Distribuição de Energia Elétrica. Wikipedia. Acessado em 18/11/20.

[3] Informações Trimestrais (ITR) 3T20 da Taesa. Página 59.

[4] Informações Trimestrais (ITR) 3T20 da Copel. Página 41.

[5] Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFP) 4T16 da ISA CTEEP. Páginas 40 e 41.

ITRs usadas:

Copel 3T20, Taesa 3T20, ISA CTEEP 3T20, Eletrobras 3T20 e EDP 3T20.

DFPs usadas:

Copel 4T19, 4T18, 4T17, 4T16, 4T15 e ISA CTEEP 4T16.

Deixe um comentário