As Demonstrações Financeiras – Parte 1

As Demonstrações Financeiras – Parte 1

Atualizado: Fev 10

Olá, leitores. O artigo de hoje é o primeiro de uma série de cinco artigos comentando as demonstrações financeiras. Um pequeno sumário do que será abordado antes de começarmos:

  • O que são as demonstrações financeiras e porque você deveria entendê-las;
  • Onde você pode obtê-las;
  • Quais são e um esboço das mais importantes [Fim do 1º Artigo];
  • Balanço Patrimonial (BP) [Fim do 2º Artigo];
  • Demonstração do Resultado de Exercício (DRE) [Fim do 3º Artigo];
  • Demonstração do Fluxo de Caixa (DFC) [Fim do 4º Artigo];
  • Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL);
  • Demonstração do Valor Adicionado (DVA);
  • A importância das notas explicativas;
  • Chegando a um parecer [Fim do 5º Artigo].

O que são as demonstrações financeiras e por que você deveria entendê-las?

Uma comparação instrutiva

Para explicar como objetos de dimensões superiores poderiam ser entendidos, o físico, educador e muitas outras coisas, Carl Sagan, usou o mundo da “Planolândia”. Nós não somos capazes de projetar ou imaginar visualmente corpos possuindo mais do que três dimensões. Para entender o seu comportamento, segundo Carl Sagan, nós poderíamos projetar uma série de imagens, as quais, sozinhas, não cubram o objeto inteiro, mas em conjunto, sim. Apesar da projeção visual manter-se impossível, entender o comportamento dessa matéria torna-se possível.

O leitor pode rapidamente entender isso se pensar num cubo e olhar para apenas em uma face do objeto. Se você perceber que empilhando várias dessas faces quadradas, uma atrás da outra, a figura final será um cubo, você então terá formado uma figura 3D a partir de várias 2D.

Qual o porquê de todo esse papo? Bem, eu acho que é uma alegoria particularmente interessante para se encarar a relação entre a empresa e suas demonstrações financeiras. Uma empresa pertence a uma dimensão superior de mercados dinâmicos, com produtos cotados internacionalmente, sujeita a movimentos cambiais, variação nas taxas de juros, obsolescência e a lista segue indefinidamente. Nós simplesmente não somos capazes de ver uma empresa interagindo com os objetos próprios da sua dimensão. O que nós fazemos é pegar várias projeções de partes específicas e tentarmos, com isso, chegar a uma conclusão do que ela é, como ela se comporta e se comportará e, mais importante, se ela vai fazer o nosso dinheiro render ou não.

O que são as demonstrações financeiras?

Vamos sair da “Planolândia” e criar uma definição um pouco mais formal: as demonstrações financeiras de uma companhia são documentos que declaram certos valores relacionados ao andar das operações. É muito difícil criar uma definição mais precisa, porque as partes da empresa que elas olham podem ser bem diferentes umas das outras, embora o que aconteça numa costume impactar noutra. Para resolver esse problema, nós falaremos um pouco de cada uma individualmente, chegando a definições um pouco melhores — sem faltar com as alegorias, é claro.

Por que você deveria entendê-las?

Não é necessário ser nenhum gênio para descobrir que não se pode esperar muita precisão dessa ciência, mas entender o que está acontecendo, dado que você conheça os limites do seu modelo, é melhor do que não entender.

Para investir num negócio tendo em vista o longo prazo, você iria ter interesse em saber que a empresa possui uma operação próspera, com margens adequadas, uma dívida equilibrada, proteção contra alguns infortúnios, e que ela reinveste no negócio lucrativo e liquida ou aprimora o não lucrativo. Isto é, você quer garantias e não meramente achar que a empresa que você investiu é boa. As demonstrações financeiras podem provar — ou pelo menos assegurar com o grau de precisão limitado pela prática — que esse é ou não é o caso. Para você descobrir isso, precisa lê-las e interpretá-las e, para essa dinâmica, você deve primeiro entendê-las.

Entretanto, as demonstrações não são autocontidas e nem resolvem todos os problemas. Elas não são autocontidas porque buscam ser o mais objetivas quanto possível. Os itens nelas contidos costumam ser divisíveis em vários outros e, além disso, elas também não explicam o que está sendo demonstrado. Tanto para um, quanto para o outro, o leitor deve recorrer às notas explicativas, que são essenciais para o entendimento completo de uma demonstração financeira singular e como elas se conectam.

As demonstrações também não resolvem todos os outros problemas, porque elas só contam a história que se passa dentro da empresa, mas existem fatores externos igualmente importantes que independem da empresa, mas a afetam da mesma forma. Nessa categoria encaixam-se, por exemplo, mudança nas taxas de juros, reformas nas leis, clima, variações cambiais, preços de commodities, etc.

Onde se pode obtê-las?

As demonstrações financeiras são divulgadas trimestralmente, relativas ao último trimestre corrido, como sugere o Quadro 1:

Quadro 1 – Os trimestres dos exercícios empresariais.

Frequentemente, o leitor poderá encontrar uma nomenclatura nos seguintes moldes: “1T19” ou “2T20” ou “TTM06/18”. Elas significam, respectivamente, 1º trimestre de 2019, 2º trimestre de 2020 e 12 últimos meses até fim do 2º trimestre de 2018 (3T17, 4T17, 1T18 e 2T18). O documento que reúne as demonstrações financeiras é obtenível no site da empresa, na seção de relação com investidores (RI) ou na página da empresa no site da bolsa de valores (B3). Eles demoram um certo tempo para serem feitos e, portanto, existe uma defasagem entre o tempo de ocorrência dos dados e suas publicações.

No quarto trimestre, muitas companhias não divulgam os dados trimestrais desse período, mas, sim, os dados do ano inteiro. Outras fazem as duas coisas, ou em documentos separados ou no mesmo. De toda forma, um pode ser obtido pelo outro. Esses relatórios de final de ano demoram mais que os trimestrais, com tempos de defasagem de, geralmente, 2 a 4 meses.

Quais são as demonstrações financeiras e quais as mais importantes?

Como ficou implícito no nosso sumário lá em cima, temos três demonstrações que consideramos pivotais e outras que atuam mais pontualmente. Esse é o caso, simplesmente, porque algumas demonstrações fornecem muito mais informações do que outras; sendo o nosso tempo limitado, nós devemos reunir a maior quantidade de informações com o mínimo de esforço e o máximo de rapidez possível. Segue-se daí que devemos dar mais atenção a umas e pouca ou nenhuma atenção a outras demonstrações. Eis aqui uma lista delas onde as três primeiras são as que eu considero as mais importantes:

  1. Balanço Patrimonial (BP);
  2. Demonstração do Resultado de Exercício (DRE);
  3. Demonstração do Fluxo de Caixa (DFC);
  4. Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL);
  5. Demonstração do Valor Adicionado (DVA).
  6. Notas Explicativas.

Vamos à primeira:

Balanço Patrimonial (BP)

O balanço patrimonial vai dizer o que uma empresa possui e o que ela deve. Quando você recebe o seu salário e paga o que deve, você fica com o que sobra e, teoricamente, pode fazer o que você quiser com ele. Com uma empresa, as coisas não funcionam assim. Tudo o que ela tem é repartido entre as partes interessadas, necessariamente. Entretanto, algumas partes pegam primeiro que outras (os fornecedores, funcionários e credores) e outras ficam com o que sobra (o sócio). Num certo sentido, o sócio de uma empresa está na mesma situação que você, depois de receber o seu salário e pagar suas contas. Nós vamos deixar as equações para o próximo artigo, agora estamos preocupados com a essência dessa configuração.

O que a empresa tem é chamado de ativo e o que ela deve é chamado de passivo. Como ficou implícito no parágrafo anterior, essas contas são numericamente iguais – porque tudo que ela tem é de alguém. Além disso, elas podem ser divididas em circulante ou não circulante. No caso dos bens, circulante é aquilo que pode ser transformado em dinheiro em menos de um ano (sem uma perda significativa do valor declarado) e no caso das contas a pagar, são aquelas que vencem em menos de um ano. Ativos e passivos não circulantes são todos os outros cuja liquidação ou vencimento superam um ano. Uma dívida particular da empresa, que não possui um vencimento determinado, é aquela com o sócio. Ela é declarada separada dos demais passivos e é chamada de patrimônio líquido.

Nós falamos de bens e dívidas até agora sem esclarecer muito bem o que são. Suas definições são autoevidentes, mas vamos para alguns exemplos para iluminar o caso no Quadro 2:

Quadro 2: Exemplos e descrição dos exemplos no Balanço Patrimonial.

Voltando para as analogias, o balanço patrimonial disseca a companhia e mostra as várias partes do seu corpo. Um ponto que me parece particularmente importante de se notar no balanço patrimonial são suas proporções: ele mostra como a empresa financiou seus bens e, uma vez com os recursos, como ela os gastou ou poupou. Naturalmente, não se deve esperar que exista uma proporção única e perfeita para todas as empresas, da mesma forma que não existe um animal com o corpo perfeito — isso depende do ambiente e de como ele interage com o meio. Uma empresa com receitas previsíveis, como aquelas do setor de energia elétrica, pode se dar ao luxo de emitir mais dívidas ou possuir menos caixa do que outras de setores mais oscilantes, como o metalúrgico ou petrolífero.

O BP é uma figura estática da companhia ou, como preferem dizer por aí, uma foto dela. E como uma criatura que quer impressionar, ela faz pose, usa maquiagem e Photoshop.

Demonstração do Resultado de Exercício (DRE)

Da mesma forma que dizem que o BP é uma foto, dizem que o DRE é um vídeo da empresa. De caráter dinâmico, ele mostra o desempenho de uma empresa ao longo de todo um período.

Uma empresa conseguirá manter sua atividade através do fornecimento de um certo produto ou serviço ao mercado se ela auferir o suficiente para, pelo menos, cobrir todos os gastos envolvidos na geração dessa venda. Se o obtido supera o que foi gasto, ela possui um lucro, que pode ser distribuído ou reinvestido. As fontes de gastos da empresa, entre o preço que o consumidor paga pelo produto ou serviço, e o que a empresa de fato ganha para além da manutenção da atividade atual tem, geralmente e principalmente, cinco fontes:

  1. O quanto custou em impostos para poder comercializar o produto ou serviço;
  2. O quanto custou para fabricar o produto ou fornecer o serviço;
  3. O quanto custou para operar a venda do produto ou serviço;
  4. O quanto custou para financiar o produto ou serviço;
  5. O quanto custou em impostos sobre o restante da receita.

Depois de cada um desses cinco tipos de gastos, nós temos um lucro/receita correspondente, seguindo a mesma ordem:

  1. Receita Líquida;
  2. Lucro Bruto;
  3. Lucro Operacional;
  4. Lucro Antes do Imposto de Renda;
  5. Lucro Líquido.

O Quadro 3 a seguir pode ajudar a colocar as relações em ordem e, fornecendo alguns exemplos, tornar o entendimento mais claro:

Quadro 3: Exemplos e descrição dos itens do DRE.

[Na prática, entretanto, a DRE começa pela receita líquida.]

O desempenho de uma empresa costuma ser quantificado pelo quanto ela consegue lucrar em relação ao que ela vendeu ou em relação ao capital empregado para realizar essas vendas. Assim como no balanço patrimonial, a empresa deseja causar uma boa impressão dos seus resultados e mostrar lucros que agradem seus acionistas e possibilitem uma captação de crédito ou subscrição de capital caso ela queira.

Demonstração do Fluxo de Caixa (DFC)

Nós falamos que o balanço patrimonial mostra as proporções de uma empresa. Uma bela empresa possui boas proporções e adequadas ao seu ambiente, mas ele pouco ou nada fala da beleza interior: como ela pensa. Eu penso que o papel da DFC, dentre outras coisas, é justamente esse, de mostrar o pensamento atual de quem toma as decisões lá dentro. Diferentemente de pessoas, uma empresa em boa forma e que não pensa em como mantê-la, está nesse estado só incidentalmente e, provavelmente, não estará por muito tempo.

Chega de analogias. Quando eu digo que a DFC mostra o pensamento da empresa, eu tenho duas questões em mente: a decisão de financiamento e de investimento. Vamos à primeira:

Como dissemos no balanço patrimonial, tudo o que a empresa possui pertence a alguém. Esse alguém é quem financia a empresa. Como ninguém faz nada de graça, o financiador cobra um juros por esse capital. Se estamos falando de um credor, como um banco, esse juros é no sentido literal; se falamos de um sócio, ele é alegórico e vem na forma de participação dos resultados futuros provenientes do sucesso das operações da empresa. Ao passo que o credor costuma ser menos oneroso se a operação for bem sucedida, ele também é mais arriscado caso ela não seja — porque o credor tem proteções legais contra calote que o sócio não dispõe. Se o futuro fosse previsível, uma determinada administração da empresa sempre saberia qual a melhor forma de financiamento a se fazer, mas como ele não é, a virtude dessa decisão de financiamento será dada em quão barato ela terá conseguido pagar pelas suas operações frente aos resultados obtidos.

A qualidade da decisão de investimento é dada pelo quão bem uma empresa conseguiu investir o dinheiro captado para gerar mais lucro. Muitas vezes podemos observar o caso da expansão ineficiente acontecendo, em que o dinheiro captado gera retornos, mas o desempenho da empresa — nos moldes estabelecidos na seção do DRE — cai.

Uma mente menos criativa diria que a função da demonstração de fluxo de caixa é demonstrar o fluxo de caixa gerado e ela não estaria errada. O que ela quer dizer com isso é que o objetivo dessa conta é mostrar o dinheiro (na forma de dinheiro e não de algo transformável em dinheiro) que a empresa gerou. Dessa forma, a DFC teria um comportamento de maneira complementar ao DRE, porque ambas operam em regimes diferentes. Ao passo que a DFC opera em regime de caixa, a DRE opera em regime de competência. A diferença entre um e outro é que no, regime de caixa, uma receita é computada quando o pagamento pelo produto ou serviço é recebido; no regime de competência, a receita é computada quando o produto ou serviço é vendido. Como venda e pagamento não necessariamente acontecem ao mesmo tempo, o caixa obtido pelas operações do período dificilmente casa com o lucro líquido do mesmo.

Além disso, outro motivo para as duas contas diferirem são os “custos fantasma”. Eles são valores que a empresa desconta dos seus resultados, mas o gasto ainda não ocorreu de fato. O caso clássico é o da depreciação, na qual a empresa desconta a depreciação dos seus bens na receita. Isso não quer dizer, entretanto, que ela gastou o dinheiro, mas, sim, que a propriedade perdeu valor. No fluxo de caixa, esse dinheiro é restaurado à conta e depois descontado nas decisões de investimento — no valor do investimento. Note que a depreciação e o que será reinvestido não precisam ser, por obrigação, iguais, e isso também causará discrepâncias.

Nos dois últimos parágrafos eu falei, basicamente, do fluxo de caixa advindo das operações, e ele será a outra fonte de financiamento da empresa para que ela não recorra, necessariamente, às novas fontes. Se você estiver se perguntando a quem o fluxo de caixa pertence, já que ele não veio de ninguém, esse é o juros do sócio que já está dentro da empresa, que ele recebe na forma de “participação dos resultados futuros provenientes do sucesso das operações da empresa”.

O que foi e o que virá

Espero que esse resumo tenha sido suficiente para um esboço do esquema geral das demonstrações financeiras. Buscamos mostrar a quem elas interessam, como obtê-las e quando; mostramos quantas, quais e como são. Pelo bem da didática, sacrificamos um pouco em precisão e abrangência, que tentaremos recuperar nos artigos que vêm por aí. No próximo artigo, nós mergulharemos na discussão do Balanço Patrimonial e, depois, nas demais. Até a próxima!

Autor: João Marcos

Revisores: Rodrigo Monroe e Guilherme Augusto

Deixe um comentário