Agências Avaliadoras de Risco: como elas afetam minha vida e meus investimentos?

É possível que em algum momento nos últimos anos você tenha lido ou ouvido falar sobre o rebaixamento de rating do nosso país ou de alguma empresa nacional, como a Petrobras. Talvez tenha ficado sabendo da elevação do rating da Índia neste último mês de novembro. Mas o que Brasil, Petrobras e Índia têm em comum? Hoje, vamos falar sobre as agências avaliadoras de risco, sobre rating e entender como tudo isso afeta as nossas vidas, a economia e os nossos investimentos.

Bem, não importa se você é um pequeno investidor que todo mês aplica uma parte do seu salário ou se é um grande fundo de investimento com uma carteira bilionária. Ao investir dinheiro em um ativo, existe sempre a preocupação com o risco. As primeiras coisas que vêm à mente geralmente são: “E se essa empresa falir? ”, “E se esse banco quebrar? ”, “Quais as chances de a economia ir pelo ralo e o governo dar um calote?”. É exatamente pela necessidade de dar ao investidor uma ideia do risco ao qual está se expondo que existem agências especializadas e dedicadas exclusivamente a fazer esse tipo de análise.

A existência de agências avaliadoras do crédito de países e empresas possui dupla finalidade. Por um lado, ajuda os investidores a saberem quão seguro é um dado investimento. Ao aplicar recursos em um título de dívida o investidor, a princípio, estará consciente das chances de que essa dívida seja honrada. Por outro lado, a existência de avaliações desse tipo é boa para as empresas, já que as mesmas podem ter sua saúde financeira atestada por instituições independentes.

Standard & Poor’s (S&P), Moody’s e Fitch Group são as três maiores agências avaliadoras de crédito. Elas avaliam o risco relacionado a emissões de dívidas de empresas e países, e cada uma tem o seu próprio sistema de classificação. Por terem uma fatia imensa do mercado mundial (em 2013, as três juntas somavam 95%), são conhecidas como The Big Three.

Sendo instituições privadas, as agências avaliadoras de risco possuem duas principais fontes de receita: as empresas, que pagam para terem seus títulos de dívida avaliados, e os investidores, que pagam pelos relatórios produzidos. O questionamento sobre o conflito de interesses que pode existir em relação ao fato de que as empresas avaliadas são as mesmas que pagam às agências para avaliarem seus ativos ficam por conta do leitor.

Segue abaixo uma tabela com os sistemas de rating das três principais agências e os seus significados.

Tabela 1 – Ranking das classificações de Moody’s, S&P e Fitch

As notas das agências também não costumam divergir muito entre si. Quando uma delas eleva ou rebaixa o grau de investimento de um país, é comum que as outras sigam o mesmo caminho.

Mesmo após a crise financeira de 2008, a qual levantou sérios questionamentos quanto à credibilidade dessas agências, elas ainda têm enorme influência na percepção que o mercado tem das empresas e dos países. Uma mudança para cima no rating de uma empresa pode levar a uma considerável valorização de suas ações e de seus títulos de crédito, facilitando à mesma a captação de recursos a taxas de juros menores. Da mesma forma, o rebaixamento do grau de risco pode levar a uma desvalorização nos títulos de dívida da empresa, bem como uma queda do seu valor de mercado.

Quando falamos em renda fixa, estamos falando em títulos de crédito. Sejam títulos públicos (países) ou títulos privados (LCI, LCA, CDB, debêntures etc.), existem, como em quaisquer investimentos, riscos inerentes aos mesmos. Para os ativos de renda fixa, a maior preocupação é com o famoso “calote”, isto é, a possibilidade de o emissor da dívida não honrar seus compromissos. Nas imagens abaixo podemos ver algumas opções de títulos de renda fixa disponíveis no Home Broker de uma corretora. Na penúltima e última coluna estão, respectivamente, a nota de risco dada à empresa que emitiu o título e a agência que o avaliou.

Figura 1 – Títulos LCA disponíveis em uma corretora

Figura 2 – Debêntures disponíveis em uma corretora

É comum, como se pode notar, que títulos de dívida emitidos por empresas com ratings melhores ofereçam menores remunerações ao investidor visto que, em tese, são investimentos com menores riscos. O inverso também é verdadeiro.

Sempre é bom lembrar que, em geral, risco e remuneração têm comportamentos opostos. A relação risco-retorno ser adequada ou não fica por conta do investidor. É importante que ele conheça seu perfil e esteja consciente de sua tolerância ao risco.

O Brasil, o grau especulativo e a fuga de recursos dos fundos de investimento

Como os fundos de pensão representam uma parcela considerável dos investimentos externos no Brasil, e como esses fundos possuem regras rigorosas em relação aos ativos nos quais podem aplicar seus recursos, o rebaixamento do Brasil pelas agências de risco representou uma enorme fuga de capitais nos últimos anos, agravando a crise econômica do país. O desequilíbrio nas contas públicas somado às incertezas no meio político foram os fatores determinantes.

De acordo com o relatório do IFF (Instituto de Finanças Internacionais), o Brasil teve as maiores perdas proporcionais de investimentos em um ranking de 31 países, como pode ser conferido abaixo. A predominância de saída foi de fundos de longo prazo americanos, europeus e japoneses.

Uma reversão do cenário político-econômico e uma perspectiva de melhora nas finanças do governo podem elevar o grau de crédito do Brasil e tornar o país novamente atrativo para os recursos estrangeiros, mas é certo que esse não é um quadro que se altera da noite para o dia.

Figura 3 – Fuga de aplicações estrangeiras

Fonte: FOLHA DE S. PAULO, 2015

Por que só existem 3 delas?

Como dito anteriormente, em novembro de 2013 o market share global somado de Standard & Poor’s (S&P), Moody’s e Fitch Group equivalia a 95%. Com essa alta concentração de mercado e poder, há muito pouco espaço para competição, ainda que existam mais de 150 dessas agências no mundo.

Após a crise da bolha imobiliária de 2008 e o papel relevante exercido pelas três principais agências de risco ao darem ratings excelentes para títulos subprime (as famosas “hipotecas podres”), têm ganhado força no mundo, especialmente na Europa, discussões sobre a importância em se promover uma menor concentração do mercado de avaliação de risco.

Em uma tentativa de fazer frente às três grandes, surge em 2013 a ARC Ratings, oriunda da parceria de 5 diferentes agências de 4 continentes. Dentre elas, a brasileira SR Ratings.

Conclusão

Pelo que foi exposto, podemos ver a importância das agências avaliadoras de risco para o mercado financeiro mundial, visto que são dedicadas exclusivamente à análise de países e de empresas para que investidores, sejam eles grandes ou pequenos, possam ter consciência do destino da aplicação dos seus recursos. Por outro lado, vemos que a altíssima concentração de mercado nas mãos de apenas três empresas, somada a questionamentos recorrentes quanto à imparcialidade das suas avaliações e os desdobramentos da crise financeira de 2008 contribuem para que se busquem mudanças nesse setor, as quais dificilmente virão no curto prazo.

Referências

INSTITUTO BRASILEIRO DE RELAÇÕES COM INVESTIDORES. Guia Rápido: Agências de Rating. Disponível em: <http://www.ibri.com.br/Upload/Arquivos/guia_rapido_rating.pdf>. Acesso em 29 nov. 2017

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CANZIAN, F. Brasil lidera fuga de capital entre os países emergentes. Folha de S. Paulo. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/10/1692571-brasil-lidera-fuga-de-capital-entre-os-paises-emergentes.shtml.> Acesso em 30 nov. 2017.

KINGSLEY, P. How credit ratings agencies rule the world. theguardian. Disponível em: <https://www.theguardian.com/business/2012/feb/15/credit-ratings-agencies-moodys>. Acesso em: 30 nov. 2017.

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