À procura de evidências: Como o viés de confirmação atinge investidores

Atualizado: 23 de Ago de 2020

Desde a década de 70, a economia comportamental, que estuda a maneira com a qual tomamos decisões, ganha força no cenário econômico, culminando no Prêmio Nobel de 2002 com seu maior expoente: Kahneman. Na teoria clássica, “economistas presumem que pessoas são racionais” (Mankiw, 1997); no entanto, essa representação do ser humano pode ser falha, pensando no comportamento do homem como um todo na sociedade. Nesse contexto, ao se tratar de investimentos, um dos vieses mais comuns é o viés de confirmação.

O viés de confirmação acontece quando se dá muito mais atenção às evidências que comprovem um ponto de vista previamente estabelecido ou pré-concebido, ignorando qualquer informação que vá contra aquilo que se quer ouvir. Isso ocorre por dois motivos: a necessidade de manutenção da inteligência aparente ou pela necessidade de ser consistente, isto é, ter uma crença lógica o suficiente que não precisa ser alterada a todo tempo – vale ressaltar que ambos os motivos não necessariamente atuam de maneira consciente.

(Da esquerda para a direita: Subvalorizado/ O que os fatos dizem/ Supervalorizado/ O que confirma suas opinioes/ Tolisse) Fonte: https://uiux.blog/the-confirmation-bias-in-ux-research-day-97-daf59e50d946

Investidores com maior viés de confirmação e, consequentemente, mais irredutíveis em relação às suas opiniões, tendem a buscar informações que apontem no mesmo sentido de suas conclusões anteriores. Dessa forma, esses indivíduos julgam estar fazendo uma escolha mais embasada e racional quando, de fato, trata-se do contrário. Para piorar, eles são acometidos por uma expectativa muito alta de ganhos, que gera uma grande discrepância em relação ao rendimento que é realmente obtido – justamente por ignorarem os riscos inerentes aos investimentos.

Um outro fator importante para a criação do viés de confirmação é a supervalorização do próprio conhecimento sobre o mercado. Isso ocorre dado que essa percepção recai numa menor motivação para valorizar novas informações que contradizem a opinião prévia. É importante observar que por vezes nem mesmo investidores profissionais são imunes a esse vício de comportamento, já que também podem apresentar auto avaliações irreais.

Toda essa situação pode ser resumida numa falsa percepção de controle sobre eventos aleatórios – que por definição são incontroláveis. Devido à esse excesso de confiança, esses investidores tendem a uma maior frequência movimentações (trades), na tentativa de acertar o timing exato do mercado, isto é, acertar a hora de comprar e vender ações, por exemplo, com base na expectativa dos preços futuros no curto prazo.

Como essa tarefa é quase impossível de fazer consistentemente, recai-se novamente na expectativa exacerbada de ganhos e na má gestão de riscos. Por depositarem muita confiança em análises feitas com informações e previsões frequentemente irrelevantes ou incorretas, esse grande volume transacional confere pouco ou nenhum benefício adicional para aqueles que os praticam.

Para não cairmos nessa “armadilha”, eis uma lista de sugestões que o leitor pode aplicar em suas decisões de investimento:

  • Ser seu próprio “advogado do diabo”, isto é, ativamente listar as possibilidades encontradas de que o investimento analisado possa ser mal-sucedido;
  • Evitar checar cotações várias vezes por dia, a fim de diminuir a quantidade de movimentações por excesso de confiança;
  • Evitar seguir aquilo que todos estão comprando apenas por medo de perder a “próxima Magazine Luiza” (O famoso Efeito Manada). Como disse Benjamin Graham, autor de O Investidor Inteligente: “Você não está certo ou errado porque a multidão discorda de você. Você está certo porque seus dados e raciocínios estão certos.”;
  • Garantir que a margem de segurança (diferença entre preço e valor intrínseco) seja adequada, prevenindo-se contra eventuais erros nas análises de ativos;
  • Ainda de acordo com Graham, a margem de segurança garante apenas maior possibilidade de lucros, e não a garantia deles. Assim, garantir uma diversificação adequada em ativos descorrelacionados mitiga riscos específicos de cada investimento. Afinal, “Os preços das ações não se baseiam apenas em valores econômicos, mas [também] em fatores psicológicos que influenciam o mercado” (Siegel, 2013).

Artigo escrito por: Aaron Horowitz

Fontes:

  • Park, J., Konana, P., Gu, B., Kumar, A., & Raghunathan, R. (2013). Information valuation and confirmation bias in virtual communities: evidence from Stock Message Boards. Information Systems Research, 24(4), 1050+. Retrieved from https://link- gale.ez29.capes.proxy.ufrj.br/apps/doc/A353462921/AONE?u=capes&sid=AONE&xid=c1eed975
  • Antar, G., et al. (2015). O impacto das finanças comportamentais nas decisões financeiras de investidores. INSPER, São Paulo. P. 10-24.
  • Ferreira, C., Yu, A. (2003). Todos acima da média: excesso de confiança em profissionais de finanças. Revista de Administração da USP, 38(2), p 101-111.
  • Mankiw, G. (1997). Introdução à economia. Editora Cengage, São Paulo. P. 4-5.
  • Raworth, K. (2017). Economia Donut. Editora Zahar, Rio de Janeiro. P. 108-109.
  • Siegel, J. (2013). Investindo em Ações no Longo Prazo. Editora Bookman, Porto Alegre. Cap 3, 6 e 22.
  • Graham, B. (2003). O Investidor Inteligente.Editora Harper Collins, Rio de Janeiro. Cap. 20.
  • Fogaça, A. Vieses Comportamentais e as Más Decisões de Investimentos. The Cap, 2020 <https://comoinvestir.thecap.com.br/o-que-sao-vieses-comportamentais-do-investidor/> Acessado pela última vez em: 30/07/2020

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