A importância do colchão de liquidez

Dizem que é errando que se aprende, mas também já ouvi do meu pai que aprendemos bastante observando o erro dos outros. Por isso hoje resolvi contar a vocês um erro que cometi na minha pequena trajetória de investidor.

Sempre ouvi que mesmo os investidores mais arrojados e agressivos possuem a maior parte de sua carteira em ativos seguros, por exemplo, renda fixa. Alguns consultores recomendam que no mínimo 70% da sua carteira seja composta por ativos assim (tesouro, títulos privados, poupança, etc.). Porém esse não foi o meu caso. Já comecei “errado”.

Meu primeiro investimento – tirando a boa (nem tanto) e velha poupança – foi um day trade de mini contratos de Ibovespa futuro, esse foi meu primeiro erro. Com uma margem de aproximadamente 400 reais eu consegui lucro líquido de 17 reais na minha primeira operação, que durou cerca de 3 minutos. Parecia uma maravilha, se eu fizesse aquilo mais algumas vezes já poderia passar a dobrar ou triplicar minhas posições e logo teria uma renda só disso. Só esqueceram de me avisar que vida de trader é difícil, nem sempre as operações demoram apenas 3 minutos e não é todo dia que uma oportunidade boa aparece para você.

As férias tinham acabado. Eu não tinha mais tempo pra ficar na frente do PC esperando um candle romper um suporte ou resistência e com isso meus dias de trader se foram. Ainda é algo que gosto de fazer, e eventualmente acho que voltarei a operar nesse mercado, só que de maneira diferente. Acho o mercado de futuros extremamente interessante e dinâmico, é algo que me fascina, porém não recomendaria a ninguém que começasse por ele.

No fim desse período eu acabei ficando com a grana parada na corretora e precisava de um lugar pra investir. Foi aí que comecei a realmente estudar o mercado financeiro. Comprei títulos do Tesouro Direto, analisava as vantagens de LCI’s e LCA’s frente a alguns CDB’s e estudava ações com objetivos de longo prazo. Também comecei a contribuir para uma previdência privada nesse período (essa é outra história que merece ser contada) e a comprar mensalmente mais títulos do tesouro (eu tinha praticamente um ritual ao receber meu salário).

2015 foi um ano interessante na bolsa e eu comecei a ver algumas oportunidades se formarem no final do ano, próximo ao impeachment da Presidente Dilma. Com isso comecei a realocar meus investimentos em renda variável e em novembro criei um objetivo maluco de dobrar meu capital em um ano. Esse foi meu segundo erro.

2016 foi um ótimo pra quem estava na bolsa ou alocado em títulos pré fixados de vencimento longo. Com isso em maio já estava caminhando no sentido do meu objetivo, tinha uma rentabilidade acumulada acima de 60% e com mais algumas operações eu conseguiria dobrar meu capital. O problema é que surgiu um imprevisto e tive despesas que não estavam planejadas. Isso não era problema porque eu tinha dinheiro guardado, afinal eu sou um investidor. Só que com isso meu sonho de dobrar o capital em um ano foi por água abaixo, tive que sair da brincadeira mais cedo.

Eu cometi dois erros praticamente idênticos em dois momentos diferentes da minha vida. Eu não tinha uma reserva de capital, o famoso colchão de liquidez ou reserva emergencial. Tomei risco quando estava desamparado. Eu fui pro tiroteio com uma faca na mão.

O que quero mostrar aqui é que não há problema nenhum em tomar risco desde que você já tenha algo garantido caso a operação fracasse. Uma coisa é aceitar perder parte do seu patrimônio em busca de retornos maiores que a média do mercado, outra completamente diferente (e bem burra, se me permitem) é aceitar perder TODO o seu patrimônio.

Você pode e deve adicionar risco à sua carteira é isso que vai levar você a ampliar seu capital de forma exponencial, porém a maior parte da carteira deve estar em segurança e com fácil acesso (vulgo liquidez).

A quantia a ser separada para a reserva emergencial pode variar, mas nunca ser menor que 6 vezes a sua renda mensal, alguns falam em até 12 vezes. Isso varia muito para cada perfil de investidor e cada período da economia. Atualmente a média de realocação no mercado de trabalho é de 8 meses segundo o SPC. Com isso eu não recomendaria ninguém a ter uma reserva inferior a esse valor. A razão de eu acreditar que o mínimo deve ser 6x a renda mensal é que desemprego não é o único imprevisto que pode nos ocorrer. As vezes precisamos fazer reformas na casa, um reparo emergencial num carro, temos despesas médicas tudo isso deve ser levado em consideração e por isso essas 6x geralmente ajudam a cobrir uma boa parte desses imprevistos (isso pode ser amenizado ao contratar-se seguros, falarei mais sobre eles num futuro próximo).

Beleza, você já deve ter entendido que é importante ter essa reserva, mas onde colocar esse dinheiro? O dinheiro da reserva emergencial deve estar nos investimentos mais seguros possíveis e que tenham também a maior liquidez possível. Hoje no mercado brasileiro temos, por exemplo, o Tesouro Selic, Fundos de Renda Fixa e a poupança, todos esses com liquidez diária. É possível também achar em algumas instituições CDB’s pós com liquidez diária que podem ser mais vantajosos que o Tesouro Selic dependendo da taxa.

O TD e os CDB’s em particular tem liquidez diária mas o dinheiro deve ficar lá por pelo menos 30 dias (para que não haja cobrança de IOF). É válido também ter uma quantia na poupança. Por mais que o rendimento da poupança seja extremamente baixo quando comparado aos demais, ela tem uma liquidez imbatível, praticamente instantânea, sendo possível sacar diretamente dela 24/7.

Alguns bancos oferecem fundos de renda fixa com resgate automático que pode ser vantajoso também, mas fique atento às taxas cobradas pelos fundos e nos impostos também, dependendo dos valores a poupança passa a ser mais vantajosa.

Dito isso, acho que o interessante seria ter o grosso de sua reserva no Tesouro Selic e nos demais títulos pós-fixados que tenham liquidez diária e uma pequena parte na poupança para emergências mais urgentes.

O post ficou extenso, mas gostaria que vocês não cometessem os mesmos erros que eu, que acabaram prejudicando meus investimentos e meus objetivos. Sei que comprar ações parece ser muito legal, operar mercados futuros e opções também, porém antes de ir pra guerra, precisamos vestir nossas armaduras, nos blindarmos para então entrar de cabeça nos produtos mais arriscados e que trarão mais retornos também. Dessa forma podemos alcançar altos rendimentos sem prejudicar nosso patrimônio.

Muito obrigado pela atenção. Se você se interessou pelo assunto, aqui temos um post um pouco mais detalhado sobre Reserva de Emergência. Fique de olho nas redes da LIEQ para mais novidades. Nos vemos na próxima. Bons Investimentos.

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