Depreciação de Bens

Atualizado: 15 de Jun de 2020

Entendendo o que é Depreciação

Os bens de uma empresa, como tudo, estão sujeitos a ação do tempo; terrenos numa área que venha a valorizar ou terrenos de exploração de um recurso escasso são algumas das poucas exceções. Essa depreciação tem fonte tanto na deterioração pelo uso quanto na obsolescência causada pela disponibilidade de tecnologias ou processos mais eficientes; a manutenção dos equipamentos atrasa a primeira, e nada faz contra a segunda. Os responsáveis pela ela empresa sabem bem disso e, portanto, não usam o dinheiro captado apenas para expansão mas também para substituição e modernização no negócio; como qualquer captação gera encargos, só se faz isso quando essa é a opção mais rentável ou a única possível. No caso ordinário, as empresas simplesmente criam uma reserva para atender as necessidades, que ocorrem em intervalos irregulares e geralmente em pequenos pedaços do negócio por vez: um equipamentozinho aqui, um novo software ali, uma nova patente aqui, um direito de exploração ali, por aí vai.

O que Podemos Aprender com Essa Prática?

Essa ideia de criar reservas para atender necessidades de reposição pode oferecer algumas opções mais sóbrias para controlarmos os nossos gastos e fornecer pistas do que temos e o que não temos condições de pagar.

É muito comum que se troque de celular de tempos em tempos, onde muitas vezes se levanta o argumento de que eles são feitos para cada vez durarem menos; fato é que: celulares se tornam obsoletos dado algum tempo, dependendo das necessidades do usuário e eventualmente param de funcionar independente de quão bem cuidado ele tenha sido ou de sua manutenção estar em dia. Podemos extrapolar esse mesmo pensamento para notebooks, tablets e computadores; carros e eletrodomésticos também; na verdade, para quase tudo podemos aplicar essa ideia, mas vamos nos ater ao mais óbvio.

Esses bens, salvo casos específicos, não são usados para gerar lucros como são os bens de uma fábrica e, portanto, é uma péssima ideia fazer um empréstimo para poder comprá-los. Você deve arranjar alguma forma sustentável de pagar por eles.

A Reserva para Depreciação na Prática

Vamos criar um caso hipotético para explicar como funcionaria uma reserva de depreciação dos bens pessoais:

Temos um certo jovem universitário de uma certa universidade federal, que faz iniciação científica num certo centro de pesquisa onde recebe uma bolsa, ele também recebe uma certa quantia de dinheiro da sua patrocinadora materna; essas duas fontes de renda totalizam, digamos, R$ 1000. A sua morada é quitada e ele não paga nada pelos serviços de energia, gás, internet, plano de saúde e a maior parte da comida.

O esfomeado gasta cerca de R$ 300 por mês com comida e investe outros R$ 400 na bolsa de valores e títulos de renda fixa. Dos R$ 300 que sobram, R$ 100 ele gasta em média com livros e com o resto ele não faz planos, serve para outros fins como por crédito no celular e cortar o cabelo. Cerca de R$ 100 sobram por mês, os quais ele é pão-duro demais pra gastar, vamos dizer que esse será o aporte mensal para construir a sua reserva.

Esse indivíduo possui apenas dois bens os quais ele precisa contar depreciação: seu notebook e seu celular; Natal e aniversário já compensam a depreciação no guarda-roupas. Avaliados em valores de mercado de produtos equivalentes, seu celular e notebook, custam R$ 800 e R$ 2500, respectivamente.

O histórico do mancebo diz ele que troca de celular e notebook, em média, a cada 2,5 anos (30 meses) e 6 anos (72 meses), nessa ordem. Para atender a substituição dos seus aparelhos, ele usa as sobras mensais para construir essa reserva; o celular iria requerer uma reserva mensal de R$ 27 e o notebook de R$ 35, totalizando R$ 62 por mês. Mas de vez em quando um fone quebra, um mouse precisa ser trocado, coisas do tipo; podemos ser conservadores e aumentar essa reserva para R$ 70. Porém, criar reservas só com base na média pode ser mais ilusório do que se parece: os aparelhos podem quebrar antes ou depois desse tempo. O mais precavido seria colocar aportes significativamente maiores do que a média até se completar o custo de substituição e uma vez acolchoado, poderia se colocar aportes menores, visto que ficar sem os aparelhos não é uma opção para o rapaz.

Se esse jovem só pode colocar R$ 100 por mês de reserva, e ela mal dá para cobrir a depreciação dos seus eletrônicos atuais, será que ele deveria fazer um upgrade e trocar seu celular por um Applesungmi XYZ 9000 que custa R$ 4000? Provavelmente não, a depreciação desse aparelho é muito mais pesada do que ele consegue aguentar e ele precisaria retirar o dinheiro de outras fontes.

A capacidade de se pagar as parcelas amortizadas dos bens que você possui deveria ditar a quantidade e a qualidade deles: se você pensa em comprar um carro melhor ou um celular da nova geração, você deve ser amplamente capaz de, ao tempo de ter que substituí-los, ter conseguido juntar dinheiro para comprar um novo. Essa prática é útil para conter o impulso de querer ostentar e te protege de ter que pagar parcelado com juros; você só vai de fato comprar o que você pode comprar.

A lógica dos planos de saúde funciona de maneira similar, se está criando uma reserva de depreciação contra os problemas que você pode ter no futuro. Você vai estar pagando adiantado e, no caso ordinário, com juros – do contrário não se ofereceria planos -, mas em algumas exceções esse plano vai realmente ser útil em impedir que a pessoa possa se tratar sem ter que declarar falência. A possibilidade – mesmo que pequena – de você ser o felizardo que pode ser acometido pelo tipo de tragédia que faz um plano de saúde te ser lucrativo, convence a possuir um.

O jeito racional de se comprar uma moradia pode ser um tanto parecido com a lógica da reserva para depreciação, mas residências são um pouco mais complicadas de se tratar e existem argumentos sentimentais que a mera aritmética não pode superar. No que tange a aritmética da questão, entretanto, o que seria melhor: financiar uma casa ou pagar aluguel e juntar o dinheiro para comprar uma casa a vista – assumindo que estejamos falando do mesmo imóvel ou de comparáveis? Desconsiderando quaisquer outros fatores de relação locador-locatário, manutenção do imóvel, conforto, etc., essa questão possui algumas variáveis das quais três são as mais importantes:

  1. Qual a taxa de juros a ser paga no financiamento da casa;
  2. Qual o valor do aluguel, de preferência em termos do valor total da casa;
  3. Qual a taxa que você pode emprestar o seu dinheiro em aplicações seguras, até totalizar o montante necessário para comprar o imóvel.

Quanto maior forem os juros do financiamento, menor o aluguel e maior a taxa de juros para aplicar, mais favorável se é alugar e juntar o dinheiro; do contrário, financiamento é a melhor opção. Essas variáveis não são fixas no tempo e uma melhor decisão pode ser tomada consultando partes desinteressadas e avaliando os diversos cenários possíveis.

Por último, reiteramos o ponto III: a reserva não precisa ficar parada acumulando poeira no banco e pode ser colocada em títulos seguros, para que fique rendendo e possa diminuir o valor médio necessário a se aportar; também é importante que o investimento seja líquido, para que possa ser resgatado rapidamente sem nenhum prejuízo ao valor principal. O Tesouro Direto oferece títulos com essas duas qualidades e pode ser ideal ao pequeno investidor; bancos fornecem CDBs com liquidez imediata e são uma segunda alternativa.

Texto por João Marcos

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